As imagens iniciais de Yalda – Uma noite de perdão são impressionantes: uma vista noturna de Teerã, mostrando-a como uma cidade bastante cosmopolita e até moderna, com seu trânsito carregado. Isso tudo, no entanto, contrasta com a história da jovem Maryan (Sadaf Asgari) acusada de matar o marido e condenada à pena de morte.
Ganhador do prêmio de Melhor Filme Dramático Internacional no Festival de Sundance de 2019, o longa, escrito e dirigido por Massoud Bakhshi, funciona como um contraponto ao cinema iraniano mais famoso, com suas imagens de natureza e tempo contemplativo. O principal cenário aqui – na verdade, praticamente, o único – é um programa de televisão, chamado A Alegria do Perdão, do qual Maryan participa na esperança de conseguir poupar sua vida.
Ela chega ao canal de televisão algemada e um tanto assustada, ao contrário de sua mãe (Fereshteh Sadre Orafaiy), que, está mais do que esperançosa, está empolgada. O produtor do televisivo (Babak Karimi) garante: ela será perdoada, afinal, essa é a noite da Yalda, que acontece no solstício de inverno e é um dia de celebração no Irã.
O filme começa num tom que parece pender para a sátira, transformando em espetáculo o processo judiciário, numa espécie de julgamento televisivo e informal que acontecerá com Maryan, que matou seu marido, um homem mais velho. No programa, a jovem deve pedir perdão à filha adulta e herdeira dele, Mona (Behnaz Jafari).
A história que se revela, no entanto, é um tanto intrincada, e cada vez mais impressionante. O marido, de 65 anos, era rico e patrão do pai de Maryan, que trabalhava para ele como motorista. Ele se dizia apaixonado pela jovem, e ela acabou cedendo. Então, ele lhe propôs uma prática chamada de “casamento temporário”, uma união com data de validade e, no final, desfavorável à mulher. Além disso, foi estipulada a condição de que ela não engravidaria. Quando isso acontece, ela e o marido começam a brigar e um suposto empurrão resultou na morte dele, que caiu e bateu a cabeça, conforme a reconstituição encenada.
Bakhshi, que também assina o roteiro, traz complexidade às duas figuras femininas centrais aqui: Maryan e Mona, duas personagens presas a uma sociedade patriarcal que limita suas opções e poder de escolha. À segunda mulher, cabe um difícil poder de decisão, sob a pressão de que todos torcem pelo perdão da acusada. Yalda – Uma noite de perdão é um filme que revela muito sobre a sociedade iraniana, embora nem sempre seja capaz de ser tão crítico como poderia ter sido, ao se esquivar de uma abordagem mais densa de temas como classe e gênero.
