A primeira coisa que chama a atenção na animação infantil Tarsilinha, dirigida por Celia Catunda e Kiko Mistrorigo, é como o filme consegue levar ao seu público a obra da pintora Tarsila do Amaral. Suas figuras, muitas delas bastante lúdicas por natureza, ganham vida na tela.
Os traços diferentes dos animais e criaturas folclóricas garantem um ar onírico à viagem da protagonista, a menina Tarsilinha, cuja jornada tem um quê de Alice no País das Maravilhas, mas, obviamente, calcada na brasilidade das cores da pintora. A protagonista, dublada por Alice Barion, é uma menina que está no sítio com a mãe (Maíra Chasseraux), onde descobrem pequenos mementos da juventude e infância da mãe, desde um diário até joias.
Escrito por Fernando Salem e Marcus Aurelius Pimenta, esse é um filme sobre a memória - mais do que recordações, é sobre o perigo do esquecimento. Enquanto Tarsilinha e a mãe estão com essas objetos fora de uma caixa, tudo é levado embora por um vendaval, e, a partir dessa perda, a mulher esquece todo seu passado e presente, inclusive a filha.
Caberá a Tarsilinha entrar num mundo misterioso e mágico para resgatar os objetos, na esperança de que as lembranças da mãe voltem. É nesse lado da floresta onde as figuras peculiares dos quadros de Tarsila ganham vida, são seus habitantes. O primeiro amigo que ela faz é um sapinho redondo e de fala engraçada – dublado por Ando Camargo.
Ele será uma espécie de guia nesse lugar estranho, onde ela descobrirá que uma lagarta (Marisa Orth) está roubando objetos e memórias das pessoas, pois ela mesma parece não ter lembranças, por isso precisa pegar de outras pessoas. Seu ajudante é o atrapalhado Bicho Barrigudo (Rodolfo Dameglio). O esconderijo deles é a icônica figura do quadro Abaporu.
É muito bom como o filme integra a obra de Tarsila à trama, ao cenário e aos personagens de maneira orgânica. A dupla de diretores que tem no currículo, entre outras obras, O Peixonauta, acerta muito ao concentrar o filme no seu público-alvo: as crianças. Nesse sentido, ajuda a formar um público para o cinema brasileiro, como também mostra outras possibilidades da animação para além da hiperatividade dos filmes norte-americanos do gênero. Além disso, ao tocar no tema da memória, por extensão, fala sobre a memória nacional que a cada dia parece ser mais esquecida, na medida em que artes também são atacadas.
