Quando o cineasta Mikhail Kalatozov recebeu a encomenda para fazer um filme sobre a Revolução Cubana, imaginava-se um Encouraçado Potemkin cubano. No entanto, o resultado não poderia estar mais longe disso, mesmo sendo tão bom quanto. O realismo soviético nunca foi muito o interesse do cineasta, cuja obra está mais calcada num rigor estético alucinatoriamente poético – basta ver seu premiado Quando voam as cegonhas. Eu sou Cuba é um filme que ficou perdido por anos – sua trajetória, aliás, foi resgatada pelo brasileiro Vicente Ferraz no documentário Soy Cuba – O mamute siberiano.
Lançado originalmente em 1963 com o claro intuito de propaganda, mais de meio século depois o que fica é a ousadia técnica de Kalatozov e do diretor de fotografia Sergey Urusevskiy (parceiro do cineasta em Quando voam as cegonhas e Carta que não se enviou), cuja câmera desafia a gravidade e cujos planos parecem não ter fim. Esse é um filme construído em suas imagens, quase sem diálogos, em quatro segmentos, tendo início com uma festa decadente de uma elite cubana pré-revolução ao redor de uma piscina. Entre tantas imagens que chamam a atenção: uma mulher mergulha numa piscina e, impressionantemente, a câmera mergulha junto com ela. Pouco importa como isso foi feito, o que fica é a sensação de que a câmera estará colada nos personagens, não importa onde eles estejam. Ou talvez seja um retrato de uma elite que podia tudo, materializando em seu domínio sobre as imagens do filme. Algumas décadas depois, em Boogie Nights – Prazer Sem Limites, Paul Thomas Anderson homenageou essa cena refilmando-a praticamente ipsis literis.
A revolução, enfim, o tema do longa, é contada por meio da vida de cubanos e cubanas, como Maria, que trabalha numa boate que recebe turistas americanos e é forçada a se prostituir com eles; Pedro, que arrenda um pedaço de terra e perde sua plantação de cana-de-açúcar quando o dono do terreno o vende para uma empresa norte-americana; Enrique, um jovem intelectual universitário e revolucionário; Mariano, um homem que se junta ao exército rebelde após perder o filho. Nessas figuras, a história do povo cubano, que sofreu anos de opressão e que, finalmente, toma seu país para si.
Eu Sou Cuba cria uma imagem, ao mesmo tempo, mítica e utópica da ilha. A sensação, até hoje, é de um lugar enclausurado em seu passado, e que o preto e branco do filme, obviamente, não traduz o colorido vibrante que sabemos existir no país. É, ao mesmo tempo, um filme melancólico, em sua ingenuidade política, mas potente em sua força cinematográfica, seu balé de imagens numa fotografia prateada. Olhar a Cuba da revolução do longa é também pensar no país do presente, na utopia que ainda resiste a duras penas.
O ponto alto é o impressionante plano-sequência de um funeral. A câmera de Urusevskiy move-se por caminhos misteriosos. É um milagre da técnica empregada de maneira a causar um encantamento estético. A imagem começa no solo, acompanhando o cortejo, sobe pela lateral de um prédio, onde nas sacadas pessoas jogam flores, no alto, “atravessa” a rua e entra numa fábrica de charutos, percorrendo-a até chegar a uma sacada onde a bandeira cubana está sendo estendida e, novamente, no solo, reencontra o cortejo. Essa sequência é o prelúdio para a Revolução, que ocupa a meia hora final de Eu Sou Cuba.
É de uma maneira quase espectral que a narrativa se constrói aqui, um tanto solta, mas sempre marcada pelo povo acima de tudo. Ao fundo, ouve-se, algumas vezes, a narração etérea da atriz Raquel Revuelta, creditada como A Voz de Cuba, com falas que marcam o andamento do filme e da revolução. Quando Mariano, finalmente, pega em armas, ela diz: “Sou Cuba. Suas mãos se acostumaram com a enxada, Mariano. Mas agora tem um rifle em suas mãos. Você não atira para matar. Você atira no seu passado. Você atira para proteger seu futuro...”. A partir daí, como apontam o filme e a história, foi um caminho sem volta.
