Janis é uma fotógrafa independente, que trabalha numa revista. Ela está em busca dos despojos de seu bisavô, assassinado pelos franquistas na Guerra Civil Espanhola. Envolvendo-se com Arturo, antropólogo que a ajuda nas pesquisas sobre o bisavô, ela engravida. Quando vai dar à luz, fica no mesmo quarto que a adolescente Ana. A partir daí, as vidas das duas permanecerão entrelaçadas.
- Por Neusa Barbosa
- 18/01/2022
- Tempo de leitura 3 minutos
Pedro Almodóvar volta ao melhor de sua forma em Mães Paralelas, um drama em que brilha, como em nenhum outro filme, de forma particular, o talento maduro de Penélope Cruz. Atriz que começou a atuar muito jovem com o consagrado diretor espanhol, num pequeno papel em Carne Trêmula (1997) - quando contava 23 anos -, Penélope entrega-se totalmente à personagem de Janis, uma fotógrafa independente, apaixonada e dividida entre a maternidade e a busca dos restos de seu bisavô, assassinado pelos franquistas na Guerra Civil Espanhola.
A maneira como Almodóvar costura as ligações entre o pessoal e o histórico, o social e o político, transpira com uma nitidez totalmente segura neste filme apaixonante, que abriu o Festival de Veneza 2021 e é um forte candidato a diversas indicações ao Oscar.
Janis envolve-se com o antropólogo Arturo (Israel Elejade), que a está ajudando na busca dos despojos do bisavô, e acaba engravidando. É uma gravidez inesperada e incômoda, já que ele é casado, mas ela assume a situação sozinha, sem cobrar nada dele. No momento do parto, a história de outra gravidez indesejada cruza-se com a dela, quando Janis e a adolescente Ana (Milena Smit) são colocadas no mesmo quarto. As duas darão à luz praticamente ao mesmo tempo, desencadeando outro paralelismo que entrelaçará a vida delas e de suas pequenas filhas.
O talento de Almodóvar traduz-se sobremaneira na forma como ele introduz elementos de melodrama no desenvolvimento destas tramas, deixando para a parte final o resgate da história dos mortos desaparecidos na Guerra Civil. A crítica ao franquismo nunca apareceu de forma tão explícita antes num filme de Almodóvar, e nem de maneira tão orgânica.
É mais um filme de mulheres na obra almodovariana, em que se desdobram identidades muito distintas, tanto da madura Janis - que carrega o dilema pessoal mais dramático dentro do filme - quanto da jovem Ana, ainda em formação, quanto ainda da mãe de Ana, Teresa (Aitana Sánchez-Gijón), uma atriz que busca sua expressão profissional, mantendo um vínculo com a maternidade totalmente distinto das outras duas. De quebra, o filme ainda tem a pequena participação de uma das atrizes-fetiche de Almodóvar, Rossy de Palma, atuando como a sofisticada Elena, a chefe de Janis na revista onde trabalha, inserindo aqui e ali um pequeno toque de humor que, no resto, não entra no filme e nem faz falta.
Há um equilíbrio dramático perfeito em Mães Paralelas, que mantém um parentesco com outras obras magistrais do diretor sobre o universo feminino, caso de Tudo sobre minha mãe, Fale com ela e Volver. É um Almodóvar no seu melhor, um Almodóvar maiúsculo que se afirma aqui. E se Penélope Cruz não ganhar todos os prêmios do mundo com esta atuação, como já ganhou em Veneza 2021 e outros, todas as academias e sociedades atribuidoras precisarão ser refundadas. Sua Janis tem corpo alma, substância, paixão, medo, dúvidas, afirmação. É uma das melhores personagens femininas já criadas por um Almodóvar que já brindou o mundo com tantas delas.
