16/06/2026
Documentário

Ode ao choro

No começo de 2019, a diretora de cinema Cecilia Engels perdeu sua melhor amiga, uma das vitimas do rompimento de uma barragem em Brumadinho. Com dificuldade de lidar com o luto, a cineasta busca ajuda de diversos especialistas para enfrentar a perda, além de se indignar com a impunidade no caso.

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Era 25 de janeiro de 2019, feriado na cidade de São Paulo, uma sexta-feira, quando a cineasta Cecilia Engels viajou para um sítio isolado com alguns amigos, ficando incomunicável, sem internet, sem sinal de celular. Apenas no domingo, já na estrada, quando pode acessar as inúmeras mensagens que lhe foram enviadas: soube que sua melhor amiga, Tatá, havia morrido, junto com parte de sua família, no rompimento da barragem em Brumadinho.
 
O documentário Ode ao Choro foi rodado poucos meses depois, quando a cineasta ainda estava em processo de luto. A partir da interação com alguns tipos de terapias, ela busca ferramentas para lidar com a dor e a perda. Apesar de ter um tema espinhoso ao centro, a diretora encontra nesse média-metragem uma maneira de celebrar a vida – em especial a da amiga que morreu de forma tão trágica.
 
Mas o filme não é apenas sobre a diretora e seu luto. Há o momento em que o político e social se cruzam com o pessoal. Três anos depois da tragédia em Brumadinho, com o rompimento da barragem, que era controlada pela Vale S.A., os responsáveis pelo crime que destruiu o meio-ambiente, a cidade e tirou a vida de 270 pessoas, continuam impunes, lembra o filme.
 
No mergulho pessoal de seu passado, a diretora resgata cartas, fotografias e momentos que passou com Tatá ao longo dos anos – elas se conheciam desde pequenas na escola. “O que fazer em caso de pós-morte?”, pergunta a diretora a certa altura. Essa é uma questão que ronda o documentário. As terapias, como a paliativa e de canto, ajudam na compreensão daquele momento e a aprender a lidar com a ausência.
 
A morte ainda é um tabu, ao menos, nas sociedades ocidentais, mas, como mostra o filme, é um assunto que necessita de uma abordagem multidisciplinar. Só sua discussão pode ajudar no processo de luto que cada pessoa enfrenta de uma maneira. “A vida depois de uma tragédia histórica não faz sentido”, diz Engels numa homenagem à amiga. Essa é a sensação que Ode ao Choro transmite, a busca de um sentido onde não há – e não haverá – mas, ainda assim, possivelmente, essa busca é  a única forma de lidar com algo dessa magnitude.
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