04/06/2026
Drama

A morte habita à noite

Raul é escritor mas não consegue sobreviver da literatura, dependendo de trabalhos precários, como num mercado de peixe em Recife, para sobreviver. Para aliviar sua dor, ele mergulha na bebida, ao lado da amante Lígia.

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Num tempo de tanta masculinidade tóxica, Raul (Roney Villela), o protagonista do drama A Morte Habita à Noite, surge como um bálsamo, de onde menos se espera. Dirigido pelo estreante em longas Eduardo Morotó, o drama flerta decididamente com a vida marginal, como seria de se esperar sendo inspirado na literatura de Charles Bukowski. Mas é justamente desse lodo em que tantas vezes chafurdam, por conta da pobreza, os trabalhadores do mundo, que se esconde tanto amor, tanto cuidado, tanta empatia, tanta poesia.
 
Ator veterano, Roney Villela - 59 anos na época da filmagem -, encarna aqui seu primeiro protagonista no cinema, e com muito brilho - e que lhe valeu a premiação como a melhor interpretação masculina no festival norte-americano Infinitto Film, depois de ter tido sua première internacional no festival de Roterdã (Holanda). Não é simples encarnar este Raul, que depende de trabalhos precários para sobreviver pobremente. Ele ora trabalha numa barraca de peixe no mercado São José, em Recife, ora numa oficina mecânica, afogando na bebida as humilhações cotidianas e as frustrações, como não poder publicar seus escritos aflitos, desesperados e cheios de vida.
 
Três mulheres habitam este filme tão impregnado de humanidade vulnerável e profundamente realista. A primeira delas, Lígia (Mariana Nunes), que há anos divide com Raul uma ligação que tanto os sustenta como afunda no mesmo desespero, na mesma falta de perspectivas, na mesma bebida, que alimenta uma falsa alegria tanto quanto entorpece.Mas este é um grande amor. Não um amor romântico clássico, que apara todas as arestas, mas um que esbarra nelas todas, sangra, dói e se reconstitui, de algum modo, lambendo o sal das feridas. Até que um dia, não mais.
 
A jovem Cássia (Endi Vasconcelos, estreando no cinema) é a segunda mulher que entra na vida de Raul, por acidente, a contragosto dele. Ela é jovem, intempestiva, atraída por homens mais velhos e manipuladora deles, mas ele resiste, paternalmente, a este assédio dela. Neste relacionamento, emerge mais clara ainda a empatia de Raul, seu afeto, seu cuidado pelas pessoas à sua volta, um traço que a expressão dolorida de Roney Villela entrega com precisão e sutileza.
 
Ainda uma outra mulher, Inês (Rita Carelli), passa pela vida de Raul, encarnando com mais vigor a presença da morte, que percorre todo o filme mas que não o torna sinistro, depressivo, como poderia parecer à primeira vista. A morte, nesta história singular, se corresponde com a vida de uma forma mais orgânica do que simplesmente como um corte, um fim brusco, uma destruição de tudo o que veio antes. A arte de Eduardo Morotó na construção deste roteiro (em que contou com a participação, no segmento final, de Rita Carelli) neste aspecto foi admirável, construindo este que é, desde já, um dos filmes mais marcantes do cinema brasileiro dos últimos tempos.
 
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