Suzu é uma adolescente infeliz, que vive com seu pai desde a morte de sua mãe. Quando entra num aplicativo de realidade virtual, ela descobre um novo mundo e se transforma em Belle, uma jovem estrela da música pop amada por todos. Mas nesse mundo também há uma Fera, cuja identidade real a protagonista tentará descobrir.
- Por Alysson Oliveira
- 21/01/2022
- Tempo de leitura 3 minutos
Suzu, uma adolescente órfã de mãe, que vive com o pai numa pequena cidade, leva uma vida calma, um tanto sem graça e melancólica. Mas, por dentro, sua existência é empolgante cheia de cores, sons, amigos e fãs. Ela é a protagonista no anime Belle, que brilha em seu colorido explosivo e sua história repleta de emoção. Escrito e dirigido pelo japonês Mamoru Hosoda, esse é um filme que dialoga direto com o presente.
Suzu, como diz a própria jovem, em japonês significa sino, por isso, ao criar um perfil virtual numa plataforma, ela adota o nome de Belle, próxima ao “bell”, em inglês. Nesse mundo fantástico, ela é uma estrela pop, amada por milhares, em apresentações que transbordam cores e brilho. O longa já começa com uma dessas, que é impressionante em sua riqueza de detalhes e colorido vibrante. De cara, já estabelece o contraste com a existência “real” da personagem, uma adolescente introspectiva e com poucos amigos.
Essa possibilidade de uma existência alternativa, chamada de “AS”, capta com precisão a ansiedade da juventude contemporânea em busca de um lugar onde possa se expressar sem julgamentos, deixando aflorar sua veia artística sem cobranças mercadológicas e afins. Ao mesmo tempo, Belle consegue rapidamente milhares de seguidores com sua performance – para espanto de Suzu –, outro elemento bastante ligado com a contemporaneidade.
Belle, desenhada por um algoritmo a partir da própria Suzu, é uma versão aperfeiçoada dela, que mantém alguns elementos evidentes da jovem, como suas sardas. Quando criança, ela tocava música com sua mãe, mas a perda desta, que a deixou emocionalmente fragilizada, transformou-se numa espécie de bloqueio. A personagem é dublada pela cantora japonesa Kaho Nakamura, o que garante performances afinadas de Belle no mundo virtual.
Não é de se espantar que Belle tenha um visual que remete às princesas da Disney – também não é surpresa que tenha sido criado pelo coreano Jin Kim, veterano de animação da Disney. No mesmo universo do U existe também uma Fera, que aterroriza a todos, mas, para a protagonista, ele não passa de alguém mal compreendido. Com sua melhor amiga Hiroka, a jovem decide descobrir quem está por trás do avatar. A ideia de Hosoda com esse lance na narrativa é transformar a sua Belle numa figura mais proativa, uma história mais em sintonia com o feminismo pulsante na juventude contemporânea, ao invés de colocar na jovem a resignação da história tradicional.
Ao mesmo tempo, é obvio, que o filme é bem mais interessante quando tem Belle ao centro, e não Suzu. Mas uma não existiria sem a outra. A estrela pop do mundo colorido e futurista não existe sem o contraste com a garota melancólica da pequena cidade bucólica. É a partir desse contraste que Hosoda cria a tensão do filme e pergunta se vale a pena pagar o preço de abrir mão de sua autenticidade para viver num mundo falso de fama e glória.
