Realizado no parque Mount Morris, no versão de 1969, o Festival Cultural do Harlem recebeu apresentações de artistas icônicos, como Nina Simone, B.B.King, Stevie Wonder, Mahalia Jackson, Sly and the Family Stone, The 5th Dimension e muitos outros. Apesar de filmado, suas imagens permaneceram quase todas inéditas por mais de 50 anos, sendo resgatadas neste trabalho, que começou a ser produzido em 2017.
- Por Neusa Barbosa
- 21/01/2022
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No mesmo verão de Woodstock, em 1969, um outro festival de música tomou conta de um parque no Harlem, em Nova York, e incendiou corações e mentes de um público estimado em 50.000 pessoas. No entanto, a repercussão dos dois eventos não poderia ser mais oposta. Enquanto imagens de Woodstock corriam o mundo, tornando-se lenda, os preciosos registros do Festival Cultural do Harlem amargaram, por mais de cinco décadas, um quase total anonimato, mergulhados num arquivo, apesar do notável grupo de artistas que se revezaram no palco do parque Mount Morris por seis finais de semana: Stevie Wonder, Mahalia Jackson, Nina Simone, B.B. King, Abbey Lincoln, Max Roach, Sly and the Family Stone, The 5th Dimension e muitos outros.
Esse luminoso material, reunindo 40 horas, filmado com cinco câmeras pelo veterano de TV Hal Tulchin, que gritavam para vir à luz, finalmente têm sua chance em Summer of Soul (...ou Quando a Revolução Não Pode Ser Televisionada), um minucioso trabalho de resgate conduzido pelo músico Questlove, que recebeu dois prêmios em Sundance (Grande Prêmio do Júri e melhor documentário para o público) e entrou na pré-lista dos indicados ao Oscar da categoria em 2022.
Destacando alguns dos míticos números musicais do festival, o documentário igualmente recorre a oportunas entrevistas de alguns dos artistas que estiveram naquele palco em 1969, assim como membros do público e outros personagens capazes de fornecer um contexto para tudo o que se processava ali. Não somente se tratava de um evento musical da maior qualidade, produzido pelo competente Tony Lawrence, como uma apoteose cultural, política e social num momento particularmente duro para a comunidade afro-americana. As crônicas tensões raciais dos EUA, irresolvidas, brotavam à flor da pele, um ano depois do assassinato do líder Martin Luther King, cuja morte violenta parecia ter sepultado de vez a procura de uma solução pacífica para o entendimento entre negros e brancos. Por tudo isso, insinuava-se um momento de explosão, que até houve, mas não transbordando em conflitos de rua e sim num misto de celebração e resgate no parque Mount Morris, transformado, naqueles dias, no epicentro da comunidade negra norte-americana.
O fato de que a maior parte destas imagens não tenha sido vista antes torna-se tanto mais espantoso diante dos momentos antológicos que ali se escondiam, como o dueto entre Mahalia Jackson e Mavis Staples na canção Precious Lord, Take My Hand - a favorita de Luther King - ou a leitura, por Nina Simone, do poema Are you ready, black people ?, de David Nelson, um dos mais candentes chamamentos à ação que se poderia conceber.
A escolha dos artistas, inclusive, desafiava classificações estritas, mesclando gêneros que não se limitavam ao soul, passando pelo gospel e os ritmos latinos. Passaram por ali grupos como o então popular 5th Dimension, ou o muito pop Sly and the Family Stone - que desafiava as convenções também ao ser bi-racial, com um baterista branco, Gerry Gibson, e duas mulheres, Cynthia Robinson e Rose Stone, como instrumentistas - e ainda os latinos Ray Barretto e Mongo Santamaría, estes afirmando as conexões afro-caribenhas de sua música. Com a quebra de fronteiras, o festival se arriscou, lançando as sementes de uma nova consciência, instaurando um divisor de águas que, por muito tempo, parecia não ter passado de um sonho, inclusive para muitos dos que o testemunharam em carne e osso. Não mais. Graças ao meticuloso trabalho do montador Joshua F. Pearson, boa parte do espírito criador e transgressor daquele remoto 1969 atravessa com energia intocada a barreira do tempo e pode inspirar, por sua vez, novas gerações hoje, muito carentes de estímulos deste quilate.
