06/06/2026
Comédia

Meu Tio

Espírito livre e descompromissado, o sr. Hulot causa preocupação à sua irmã e ao cunhado, dois burgueses ostentadores, donos de uma casa lotada de engenhocas automatizadas. A irmã tenta arrumar-lhe uma noiva, o cunhado, um emprego. Apenas o pequeno sobrinho, Gérard, admira profundamente este tio anticonvencional.

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Uma das obras mais cultuadas do diretor francês Jacques Tati, Meu Tio é um daqueles filmes que criam um mundo à parte em que a imaginação e a reflexão de quem assiste se acomodam confortavelmente. Assisti-lo é como sentar-se numa poltrona macia que não deixa de soltar algumas molas de vez em quando para sacudir seu ocupante do marasmo, tornando-o ativo no processo de fruição de suas imagens. As inúmeras premiações, como o Prêmio Especial do Júri em Cannes 1958 e o Oscar de filme estrangeiro em 1959, vieram apenas somar reconhecimento crítico ao apuro excepcional da realização. 
 
Tati, mais uma vez, entra na pele de seu clássico personagem, o sr. Hulot, para desmascarar com fina ironia a suposta perfeição do desenvolvimento tecnológico. Ele é o cunhado que não se encaixa, nem nos modos, nem na paisagem da casa ultra high tech de ostentação de sua irmã (Adrienne Servantie) e do cunhado, Charles Arpel (Jean-Pierre Zola). O cunhado, diretor de uma indústria de canos de borracha, transformou esse lar numa coleção de traquitanas modernosas, como a fonte em formato de peixe do jardim que solta uma água azul - só acionada, porém, pela mulher para impressionar as visitas.
 
Em toda a obra de Tati, nesta em particular, desenha-se esse conflito permanente entre a autenticidade e as aparências. Não é à toa que o filme começa acompanhando um grupo de cães vira-latas chafurdando alegremente no lixo, seguidos por um bassê de roupinha. Todos percorrem as ruas, correndo livres, até a porta da casa de Arpel, a quem pertence o bassê. Os vira-latinhas ficam na porta, olhando para dentro. Apesar do conforto de que desfruta o cãozinho da família Arpel, está aí a primeira sugestão da história de que na vida há mais de uma forma de viver.
Entre os humanos, é Hulot quem sintetiza esse modo alternativo de ver as coisas. Mas há também toda uma vida urbana que inclui o verdureiro, o gari, o feirante, que declaram também a intenção do diretor de confrontar a modernidade que não deixa de depender de toda uma vida provinciana e miúda ao seu redor. 
 
Não à toa, titio Hulot é adorado pelo sobrinho, Gérard (Alain Bécourt), pequeno oprimido pelos rituais de limpeza e etiqueta da mãe. Hulot vem para subverter. Leva o menino a passeios de bicicleta, em que Gérard tem a oportunidade de sair de sua bolha e compartilhar molecagens com garotos de outra condição social, divertindo-se de uma forma que em casa nunca é possível.
 
Como é habitual em sua cinematografia, Tati constroi seu filme com uma série de situações visuais, criando ambientes e gags de modo a tornar os diálogos secundários, quase sempre. Dialoga, assim, com Tempos Modernos, de Charles Chaplin, e antecede Um Convidado Bem Trapalhão, de Blake Edwards (1968), introduzindo aquele personagem que Peter Sellers reconstruiria nesta última comédia, capaz de causar uma devastação na paisagem clean e automatizada de uma casa. 
 
O uso da música - de Franck Barcellini, Alain Romans e Norman Glanzberg - é outro grande feito. Bucólica ao longo de todo o filme, ela se torna alvoroçada na sequência da rodoviária, perto do final, pontuando os climas de maneira econômica e sutil. Nunca sobra, nunca falta e emoldura um filme encantador e imortal. 
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