Verão de 1903. A família Smith leva uma vida comum de classe média na cidade de St Louis, Missouri, onde, no ano seguinte acontecerá a Exposição Mundial, que todos aguardam ansiosamente. O longa traz algumas músicas que se tornaram clássicas no gênero: "Meet me in St Louis", "The Trolley Song" e "Have yourself a Merry Little Christmas".
- Por Alysson Oliveira
- 31/01/2022
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O cinema musical atingiu seu pico com Agora Seremos Felizes, de Vincente Minnelli, lançado em 1944. Depois disso, nunca mais foi o mesmo. Poucos exemplares do gênero são tão felizes em combinar sagacidade e equilíbrio entre música e drama, comédia e romance e, ao mesmo tempo, fazer um comentário preciso sobre o início do século XX e a modernidade.
O roteiro é baseado num romance de Sally Benson, que, por sua vez, inspirou-se na história de sua família para criar os Smith, uma família comum (a começar pelo sobrenome), na cidade de St Louis, no Missouri, da virada do século XIX para o XX, quando a proximidade da Exposição Universal, em 1904, agita a cidade. A narrativa começa em meados de 1903, no verão, quando o clã, como qualquer morador local, está animado com os preparativos do que, sem surpresa nenhuma, será o clímax do longa no abril seguinte.
O roteiro, assinado por Irving Brecher e Fred F. Finklehoffe, coloca histórias comuns de gente comum numa vida de classe média com suas alegrias e problemas. O que mais se destaca é a união, o amor e a compreensão que existe naquela casa. E, para figuras do começo do século passado, os e as Smith são muito progressistas. O pai, Mr Alonzo (Leon Ames), por exemplo, não faz nenhum escarcéu quando descobre que a filha mais velha, Rose (Lucille Bremer), tem um namorado que a pediu em casamento. Ele faz até troça por ser o último a ser informado.
Judy Garland faz a segunda filha, Esther, que está no limite entre a adolescência e a vida adulta. Existem nela momentos de pura felicidade infantil, especialmente com as irmãs mais novas, mas também de responsabilidade adulta. Margaret O'Brien interpreta brilhantemente a caçula, Tootie (personagem que lhe rendeu um Oscar honorário na época), que representa a própria Mary Benson. Há ainda o irmão mais velho, Lon Smith Jr (Henry H. Daniels Jr.). A figura materna, Anna (Mary Astor), é de uma delicadeza sem igual, generosa e justa.
Agora seremos felizes não tem exatamente uma trama, mas episódios na vida dessa família, do Halloween ao Natal, passando pelo Dia de Ação de Graças, eventos que os unem. Entre um acontecimento e outro, músicas que definiram o gênero musical e sobrevivem, em várias regravações até hoje, como “The trolley song” ou “Have yourself a Merry Little Christmas”, ambas na voz de Judy Garland. Minnelli filma tudo com riqueza de detalhes e uma atenção especial para o colorido – na fotografia exuberante de George J. Folsey –, que é de encher os olhos em tons vibrantes.
Talvez a questão mais central na vida dos Smith seja a modernização que transformaria os EUA no século XX – algo que já é prenunciado no filme. A Exposição Universal é a materialização de um mundo por vir do qual não se tem como escapar – e isso não é ruim, pelo contrário. A modernidade e o novo são abraçados sem que os valores morais e os afetos da família sejam destruídos. A feira mundial é um grande evento e acontece aqui na cidade deles, como frisa Esther. Ao fim, Agora seremos felizes é uma celebração dos avanços tecnológicos – quer elogio maior ao bonde do que em “The Trolley Song”? É para andar nele que a personagem se arruma para “perder uma hora”, mas acaba encontrando um belo rapaz e perde seu coração. É um filme que bem sintetiza o etos dos EUA, seja nos seus valores morais ou nos avanços tecnológicos.
