As margens do rio São Francisco são cenário e personagem no documentário Rio de Vozes, de Andrea Santana e Jean-Pierre Duret, que acompanha famílias de pescadores que vivem entre a Bahia e Pernambuco. Filme observacional, o longa tira seu material da interação das pessoas entre si, acompanhando, ora de longe, ora de bem perto, todo o trabalho que envolve a pescaria.
Dos homens que constroem os barcos às mulheres que se tornaram empreendedoras pela força da situação, o filme capta tudo com curiosidade e revela um Brasil que existe às margens, subsistindo com uma espécie de organização própria. A relação entre homens e a natureza, assim como as implicações econômicas disso, estão em cena e geram imagens tão poéticas como melancólicas, como quando um grupo de cavalos “explora” um pequeno barco perdido em meio a uma paisagem semi-árida. A fotografia pálida da cena faz dá a aparência de um filme russo, um estranhamento que lembra Andrei Tarkovski. Na cena seguinte, duas mulheres conversam sobre a região.
Os homens pescam, mas o que se destaca com força em Rio de Vozes é a presença feminina. São as mulheres que assumem uma espécie de função empresarial, cuidando da economia e também pensando nas gerações futuras. Uma delas conta que sua filha estudou, não quis viver da pesca e hoje é professora. “Mas que eu botei meus filhos na escola, o que eles conseguiram, não veio outra renda, não. Veio da pesca. Sol, sereno, chuva, eu ia com muito orgulho.”
Constante tema de disputas e narrativas políticas, o rio São Francisco aparece aqui como a fonte de renda de diversas famílias, mas também transformado - e Rio de Vozes o mostra longe dos seus dias de glória. “Isso tudo aí é vazante. No meu tempo, era lugar de plantar... Mas está tão diferente”, lamenta-se um pescador, olhando as margens do rio.
