Combinando documental e encenações, 22 em XXI resgata a Semana de Arte Moderna, que completa um século agora, a partir da perspectiva do presente. Dirigido por Helio Goldsztejn, o filme adota um olhar crítico e revisor para aquele momento, sem deixar de concordar que foi fundamental para a história da cultura do país, porém, fazendo alguns reparos.
Num dos primeiros depoimentos, a professora e ensaísta Maria Eugênia Boaventura aponta como somos até hoje uma espécie de cria do modernismo. E isso tem mais a ver com o modo como vivemos do que com as artes, pois apreciamos o frenesi, “essa obsessão pelo progresso que é uma coisa modernista.”
A voz dela se soma à de vários e várias especialistas no assunto, que debatem as condições históricas, sociais, culturais, políticas e econômicas que permitiram que um evento como aquele acontecesse em São Paulo – e não, por exemplo, em outras cidades brasileiras onde também houvesse uma efervescência cultural moderna.
Os depoimentos se complementam e contradizem às vezes, o que prova a perspectiva plural do filme. O grande ganho aqui é a adoção de um ponto vista mais contemporâneo, que observa de maneira crítica, sem cair em reverência cega, mas também sem abrir mão das conquistas realmente importantes daquele acontecimento.
“O sonho modernista virou um pesadelo”, diz o filósofo e escritor carioca Pedro Duarte, “e talvez, o Brasil seja constituído, em larga medida, da disputa entre esse sonho modernista, aberto, antropofágico, e um pesadelo autoritário que garantiria, no entanto, ordem.”
Os trechos encenados contam com Erika Puga (Anita Malfatti), Maria Manoella (Tarsila do Amaral), Marcelo Diaz (Oswald de Andrade) e Anderson Negreiro (Mário de Andrade) que recriam conversas e episódios do quarteto a partir de documentos e depoimentos. Às vezes, são cenas um tanto deslocadas no conjunto do filme, que não fariam falta, mas também, afinal, não atrapalham.
A força de 22 em XXI está exatamente nas discussões que se estabelecem entre os e as depoentes, que questionam a visão hegemônica da Semana de Arte Moderna e jogam uma luz sobre a história. São particularmente interessantes os depoimentos, além de Duarte, do antropólogo Antônio Risério, do professor e escritor Fred Coelho, do cantor e compositor Emicida, do músico e ensaísta José Miguel Wisnik, do antropólogo Hélio Menezes, e da curadora Regina Teixeira de Barros. Há também participações que parecem obrigatórias quando o assunto é o modernismo no Brasil, como Caetano Veloso e José Celso Martinez Corrêa, que não acrescentam muito além do que já falaram em outras ocasiões.
