O documentário de Gabriela Gastal resgata a admirável história da luta de várias mulheres que atuaram para a criação do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher e para as mudanças do status feminino na Constituição de 1988, consagrando, pela primeira vez, o princípio da igualdade entre os sexos.
Antes disso, é bom lembrar, a mulher estava reduzida, por várias legislações, a uma condição de subalternidade, a partir do fato de que, por lei, o homem era considerado o chefe da sociedade conjugal. Por muito tempo, a brasileira não podia viajar ou assumir um emprego sem a autorização do marido, que administrava os bens do casal, inclusive os que fossem heranças da esposa.
Entrevistando várias personagens, como a deputada Benedita da Silva - que foi também constituinte -, a socióloga Jacqueline Pitanguy, a pedagoga Schuma Schumaher, a advogada Ana Maria Rattes, a escritora Marina Colasanti e a economista Hildete Pereira de Melo, entre outras, estabelece-se a sequência das lutas que levaram às mudanças que culminaram na nova Constituição, não sem preconceitos e entraves pelo caminho.
A criação do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher havia sido acordada com Tancredo Neves, que deveria ter-se tornando presidente em 1985. Com sua morte, o CNDM foi renegociado e assumido pelo novo mandatário, José Sarney - que se tornou conhecido por iniciar seus discursos com o bordão “brasileiras e brasileiros”, incorporando uma atenção aos gêneros que, no futuro, estava em vias de tornar-se incontornável.
O grande mérito do documentário é resgatar a importância da organização feminina entre as mobilizações dos anos 1970, engajando-se entre os movimentos que levaram à construção de um país novo depois da ditadura militar, ao lado da anistia, da volta dos exilados e da luta por eleições diretas, além da própria Constituinte.
A própria Constituinte em si foi um desafio, já que, entre os 559 deputados eleitos em 1987, apenas 26 eram mulheres. Mesmo pertencendo a partidos e tendências políticas diferentes, esta bancada feminina criou uma união que lhe valeu, pela insistência e garra, o apelido de “lobby do batom” - dado por políticos homens com intuito pejorativo mas que acabou sendo incorporado, provocativamente, pelo bloco, cuja firmeza permitiu que fossem incluídos no texto constitucional 85% de suas proposições, elaboradas a partir de sugestões de diversos movimentos sociais e populares.
Olhando para trás para essa mobilização de mais de 30 anos, surge espaço não só para um balanço como para uma reflexão em tempos em que setores flertam com um retrocesso nestas lutas femininas - do qual é prova evidente a própria extinção do Ministério das Mulheres, Igualdade Racial, Juventude e Direitos Humanos, em 2016, e os sucessivos cortes de verbas para políticas da Secretaria de Políticas para as Mulheres, diluída no Ministério da Família e Direitos Humanos, desde 2018. O documentário dá conta desses aspectos e é um muito apropriado lembrete de que a força daquelas mulheres em minoria foi terem entendido como se transformar em força política.
