Sobre imagens em preto-e-branco de uma estrada, uma voz baixa e melancólica diz: “Nasci em 14 do 9 de 50. Fui criada por minha mãe, meus irmãos. Não conheci meu pai.” Ela é Edna Rodrigues de Souza, também conhecida como Diná, cujo nome dá título ao documentário de Eryk Rocha. Morando no Pará, à beira da rodovia Transbrasiliana, é uma figura muito consciente do mundo onde vive: “Tanta terra, e a gente sem nada”, comenta a certa altura.
Com uma letra redonda e caprichada, Edna enche um caderno com seus pensamentos e sonhos, que incluem um banho de mar que faria passar todos os seus sofrimentos. No rádio, a letra de uma música diz que “somos máquinas humanas, estamos sempre correndo”. Mas o documentário parece contrapor essa ideia da velocidade com um ritmo próprio, aquele com o qual sua figura central encara a vida. Edna e as pessoas que a cercam parecem esquecidas pelo tempo.
A câmera, muitas vezes bem próxima de Edna, parece querer se fundir ao seu corpo. Um close no cabelo enquanto ela o prende, depois no olho. Ao redor, uma realidade dura é transformada pela poesia simples do cotidiano, o que não quer dizer que seja destituída de lutas. Ela pergunta ao namorado se a ama, a resposta gera uma discussão filosófica sobre amar e gostar e termina numa piada.
Na rodovia, os caminhões passam indiferentes àqueles que moram ali. A voz de Edna, às vezes, é um fio baixo que quase some. Ouvimos sussurros que podem ser uma prece. A câmera, nesses momentos, parece não existir. “Eu quero sair daqui, meu Deus”, murmura. Quando este é invocado, em meio a rezas numa pequena igreja, ouvem-se tiros. A natureza é a única testemunha.
Histórias que emergem, contadas por Edna e outras pessoas, são de violência e opressão. Vozes se sobrepõem e as narrativas se completam, sempre com os temas da desigualdade social, da exploração, da misoginia. Há também o silêncio, ou quando Edna murmura uma cantiga sem letra, esses momentos são tão reveladores quanto o discurso.
Num momento de Edna, a fotografia, assinada pelo próprio diretor e Jorge Chechile, torna-se colorida, uma explosão de cores vibrantes que iluminam o que até então se limitava a um melancólico preto-e-branco. A história de Edna, no entanto, continua triste e dura, sobre perdas e solidão. Não é uma vida que se revela de uma vez no documentário. O filme a compõe aos poucos, e apenas nos letreiros finais temos a clara noção de tudo o que aconteceu e quem é Edna, até ali uma figura construída de fragmentos em primeira pessoa.
Mesmo sendo um documentário, Edna se aproxima formalmente das ficções do diretor que funcionam como um estudo de personagem, do isolamento – em especial, Transeunte. São filmes que procuram os momentos de poesia que existem na dureza da vida. São figuras vivendo à margem de uma sociedade, retratados em filmes em preto-e-branco (aqui não o tempo todo), com apuro estético e uma profunda curiosidade sobre a alma humana. Ao revê-los, o cinema revela também uma parte do país e de sua história.
