O jornal Boca de Rua é um projeto tão interessante e importante que merecia mesmo um documentário, para que sua ideia seja mostrada para além das fronteiras de Porto Alegre, e para servir de inspiração a outras iniciativas. Feita por pessoas em situação de rua na cidade, a publicação circula há 21 anos. O filme De Olhos Abertos, dirigido por Charlotte Dafol, acompanha a produção da edição que comemora seus 18 anos.
Na verdade, o filme parte dessa celebração para fazer um retrato dos colaboradores e colaboradoras do veículo, suas vidas de luta e adversidades. Tudo começa, como em qualquer jornal, com uma reunião de pauta coordenada por Rosina Duarte, uma das criadoras do Boca de Rua. Formando um círculo, para que todos possam olhar-se, eles discutem os temas que gostariam de ver no jornal, que tem periodicidade trimestral.
Dafol acompanha não apenas o processo de produção do jornal, mas faz a mesma coisa que Rosina há duas décadas: dá voz e imagem a pessoas esquecidas ou ignoradas pela sociedade. Emergem assim histórias das dificuldades da vida na rua, mas também dos laços de companheirismo que se tornam fundamentais para a sobrevivência.
Homens e mulheres comumente invisibilizados na sociedade ganham seu lugar de fala e protagonismo no jornal escrito por eles e elas, contando histórias ligadas ao seu cotidiano. Dafol tem um olhar carinhoso para com essas pessoas no documentário. Suas histórias e trajetórias são narradas sem pressa e com riqueza de detalhes. O filme, assim como o Boca de Rua, foge de uma visão idealizada (ou mesmo ingênua) da vida na rua.
O exemplar trabalho de Rosina com pessoas em situação de rua garante-lhes dignidade, além de um dinheiro (cada um e cada uma ficam com o que ganham com a venda dos exemplares). Assistir a um filme como De Olhos Abertos é perceber uma das funções sociais do jornalismo para além da informação: dar visibilidade a pessoas e histórias que de outra forma não seriam vistas nem contadas.
