04/06/2026
Drama

A Felicidade das Coisas

Paula (Patrícia Saravy) está grávida pela terceira vez e, com os filhos e a mãe (Magali Biff), está passando as férias na humilde casa de praia da família. Enquanto espera a chegada do marido, tenta resolver os problemas da construção de uma piscina com que ela sempre sonhou. No Sesc Digital (de 28/3 até 28/5/24).

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A felicidade das coisas, primeiro longa da premiada curta-metragista Thais Fujinaga, começa com som e imagens do mar. Simbolicamente, a água costuma ser ligada à maternidade. Paula (a excelente Patrícia Saravy) é uma mãe de classe média, grávida pela terceira vez – mas seria reducionista demais definir a personagem apenas por esse prisma.

Fujinaga, que também assina o roteiro, constrói, ao lado da atriz, uma personagem complexa e repleta de nuances, tanto quantas as posições que ocupa: mãe, esposa, mulher, filha, dona da casa... É nesse trânsito entre funções que está Paula, de um lado para outro, com sua barriga enorme, resolvendo problemas, cuidando dos filhos e de sua mãe (Magali Biff). Há uma questão central, novamente simbólica: a casa de praia, onde está a família, precisa de uma piscina. Novamente, água, novamente, um processo em gestação. 
 
Com o marido distante, ainda trabalhando, é Paula quem resolve essa questão. Contrata pedreiro, compra materiais – apesar do dinheiro apertado. O filme jamais se afasta dela, e o rosto expressivo de Saravy é seu porto. Sempre tensa, angustiada e preocupada, seu mundo pequeno-burguês se apoia sobre seus cansados ombros. Sua mãe é uma espécie de contraponto, quase um alívio cômico em meio aos dramas do filme. 
 
Fujinaga tem um olhar carinhoso e especial sobre processos de amadurecimento – não importa a idade da personagem. Viver, parecem dizer seus filmes, é um amadurecimento contínuo. Nesse sentido, ela também o faz como diretora. A felicidade das coisas esconde, por trás de sua aparência simples, a complexidade de construção calcada na sua protagonista. Como na vida, diferente da arte tão meditada, não há grandes epifanias, há momentos de alegria em meio ao marasmo. 
 
Gustavo, o filho mais velho (Messias Gois) também está amadurecendo, entrando na adolescência, com um corpo que se transforma e a mente nem sempre acompanha na mesma velocidade. Ele está exatamente na fronteira, saindo da infância. E isso é, ao mesmo tempo, um sinal de que Paula também está vendo o tempo passar. 

A figura materna, tal qual a conhecemos, é também uma construção social e histórica, e é isso que Fujinaga capta com vigor em seu primeiro longa. Ninguém nasce pronta para ser mãe – se aprende a cada momento. Ganhador do prêmio da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema, na Mostra de São Paulo de 2021, A felicidade das coisas é o anúncio de um grande talento na direção de longas.
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