A situação retratada na comédia dramática Miss França não é implausível, nem improvável. Um rapaz, em dúvida sobre sua identidade de gênero, assume-se como uma mulher, e sem contar para os organizadores, participa do concurso que dá título ao filme. Possivelmente, a inspiração veio de algo parecido que aconteceu na Espanha, em 2018, quando Ángela Ponce se tornou a primeira mulher trans a ser eleita vencedora de um concurso de miss. A diferença é que a espanhola deixou claro que era transgênero.
Dirigido por Ruben Alves, o longa francês tem como protagonista Alex (Alexandre Wetter, indicado ao César de ator revelação no ano passado), um jovem transexual com uma família postiça que o estimula a participar do concurso. Desde criança, seu sonho era ser miss, e cresceu cercado de amor pelos pais, que morreram num acidente.
Anos mais tarde, Alex vive em uma espécie de pensão, comandada por Yolande (Isabelle Nanty), uma mulher que acolhe em seu apartamento pessoas não aceitas por suas famílias e que, marginalizadas pela sociedade, acabam se transformando num núcleo familiar alternativo.
Alex – que também adota o nome de Alexandra – pretende viver sua sexualidade e sua identidade sem rótulos, de maneira fluida e livre. Ele trabalha numa academia de boxe, onde treina crianças que o chamam de Princesa.
O filme roteirizado por Alves e Elodie Namer parece se situar num mundo parecido com o nosso, mas com algumas alterações. Alex é bem aceito em seu meio, não sofre bullying, nem preconceito na academia de boxe. Talvez seja isso que o estimule a assumir a identidade feminina para realizar seu sonho.
É curioso, por outro lado, que uma pessoa disposta a ser tão livre acabe se envolvendo com um concurso marcado pela objetificação da mulher – mas sonho é sonho, e pronto. Como Alexandra, ele se sai bem no concurso na região da Ile de France e, ao se tornar vencedor, concorre com as outras ganhadoras do país pelo título nacional.
Alves, que tem em seu currículo a comédia A Gaiola Dourada, não está interessado em fazer manifestos, panfletos ou lacrar, para usar a gíria corrente. Ele quer apenas contar uma história inusitada. O fato de ser destituído de ambições maiores faz de Miss França uma comédia leve e de boas intenções – o que não quer dizer que seja rasa ou tola. Há, em alguns momentos, por exemplo, uma crítica ao concurso, na figura de sua diretora, Amanda (Pascale Arbillot), que se mostra mais interessada em premiar mulheres com conteúdo do que apenas bonitas.
