O suíço A Garota e A Aranha é um filme sobre mudanças – reais e metafóricas –, e tem ao centro uma jovem que troca de apartamento, deixando para trás a colega com quem o dividia. Mara (Henriette Confurius), a que fica, sente-se perdida, não sabe mais o que fazer sozinha, como aproveitar seu tempo. Embora não seja explicitamente claro, é possível perceber que ela e Lisa (Liliane Amuat) mantinham um envolvimento muito mais profundo – possivelmente romântico – do que amizade.
Os gêmeos Ramon e Silvan Zürcher assinam o roteiro e a direção desse filme todo calcado em estranhamentos e na pegajosa canção Voyage, Voyage, clássico pop francês dos anos de 1980. O filme é descrito como o segundo de uma trilogia sobre a solidão humana. No anterior, de 2013, A Gatinha Esquisita, investigava-se a dinâmica de uma família alemã enfurnada num apartamento. Fica claro que a geografia da habitação é um tema caro à dupla de diretores – assim como a presença de animais no título de seus filmes – , pois aqui o cenário é tão importante quanto as personagens.
A Garota e A Aranha é um filme enigmático, que vai encontrar pelo caminho defensores apaixonados, mas, certamente, não é um filme para grandes públicos. Mara é o centro do filme, com seu olhar perdido dominando tudo, inclusive a narrativa, sobre sua tentativa de reencontrar-se no mundo depois dessa grande transformação em sua vida. Este também é um longa sobre a inevitável passagem do tempo, e as, também inevitáveis, transformações que vêm junto.
Sabemos que, mais cedo ou mais tarde, Mara terá de lidar com a separação da amiga, e deverá aprender a viver com isso. Antes disso, no entanto, a mudança de Lisa parece nunca ter fim. As idas e vindas, encontros e desencontros entre as duas geram uma espécie de tensão que se dissipa facilmente. Há realmente uma aranha no filme, e ela é como uma personagem secundária que tudo observa, tratada como mais uma moradora do apartamento, sem causar qualquer medo ou aflição.
Ao fim, o filme dos irmãos Zürcher é aberto a diversas interpretações. É o tipo de obra que se encaixa em praticamente tudo o que o público quiser, o que pode ser também um tanto frustrante.
