Aline – A voz do amor é uma cinebiografia de Céline Dion não autorizada, não oficial e sem o menor bom senso. Dirigido, protagonizado e coescrito pela francesa Valérie Lemercier, é um filme que todo tempo desafia a definição de inacreditável. A narrativa começa antes mesmo do nascimento da personagem-título, com o casamento de seus pais, interpretados por Danielle Fichaud e Roc Lafortune, que acabam tendo vários filhos – sim, muitos, nem vale a pena contar – e Aline é a caçula.
Desde pequena, ela mostra um grande talento vocal. O filme custa a mostrar o rosto da menininha. Primeiro a vemos de costas, depois só os olhos, até que, finalmente, sua face de revela e a grande surpresa: por meio de efeitos especiais, o rosto da atriz/diretora é colocado na face de uma criança. É um momento de estupefação do qual o filme nunca mais se recupera. O motivo nunca fica claro. Seria uma brincadeira? Vaidade de Lemercier? Não importa, é bizarro e inesquecível – não por um bom motivo.
O sobrenome da família não é Dion, é Dieu – o que rende, ao menos, um trocadilho infame –, e Aline é descoberta pelo produtor musical Guy-Claude Kamar (Sylvain Marcel), que, além de torná-la rica e famosa, torna-se seu marido – apesar da breve resistência da mãe da cantora, que logo acaba cedendo.
Aline é um filme de tom cômico, mas nunca se assume como comédia. É ultrarreverente ao seu objeto de biografia, colocando Dion, digo, Dieu, num pedestal de pobre cantora rica, com seus problemas com a voz e os inúmeros tratamentos de fertilidade para engravidar. Os conflitos aqui, basicamente, são esses, sem tocar em outras questões conhecidas da vida da cantora de My heart will go on, como sua impressionante magreza que gerou boatos sobre transtornos alimentares.
É preciso ajustar as expectativas e aceitar o que Lemercier faz com a personagem e o filme – do contrário, será apenas uma cantoria insuportável. O humor (talvez involuntário, nunca assumido) torna o filme ainda mais estranho, com algumas cenas que parecem saídas de um humorístico televisivo. Os altos e baixos (nem tão baixos assim) pontuam a trama que segue mais como uma crônica sobre gente rica do que qualquer outra coisa. A cena da protagonista perdida dentro de sua própria famosa mansão (cafona) de Las Vegas é, assumidamente, engraçada – mas só.
Num filme sobre Céline Dion, e com canções da própria – Lemercier (que ganhou o César de atriz por esse filme), aqui, é dublada pela cantora Victoria Sio – não deixa de ser irônico que a melhor música em cena seja Going to a town, do americano Rufus Wainwright. É um momento, perto do final, que parece saído de outro longa, tão contido e, genuinamente, melancólico. É a única sequência em que Aline está vulnerável e parece minimamente humana, tudo isso embalado pela impressionante fotografia de Laurent Dailland. Talvez a cena seja uma breve piscadela de tudo o que Aline poderia ter sido.
