As gerações que cresceram assistindo à peça (às vezes, até atuando, em montagens amadoras nas escolas) Pluft, O Fantasminha, de Maria Clara Machado, já podem respirar aliviadas. A diretora Rosane Svartman fez justiça na nova adaptação cinematográfica do texto, mantendo o lirismo e o lúdico do original, mas introduzindo elementos que estabelecem maior comunicação com o público infantil do presente. Essa é a terceira adaptação do texto: a primeira é de 1962, dirigida por Romain Lesage; e também há um especial de televisão dos anos de 1970, dirigida por Geraldo Casé.
Com roteiro assinado por Svartman, José Lavigne e Cacá Mourthé, o filme mantém a trama central intacta: Pluft (Nicolas Cruz) é uma criança-fantasma que mora no sótão de uma casa abandonada numa praia, junto com sua mãe (Fabíula Nascimento) e o Tio Gerúndio (Lavigne), que passa o tempo dentro de um baú. Há todo um universo dos fantasmas, com regras próprias, como por exemplo, eles são apenas fantasmas, não são pessoas que morreram.
Além disso, Pluft tem medo de gente, da mesma forma que humanos temem fantasmas. E isso ainda piora quando chega à casa a garota Maribel (Lola Belli), que foi sequestrada pelo Pirata da Perna de Pau (Juliano Cazarré), que está atrás de um baú de tesouro deixado pelo avô da menina, o Capitão Bonança Arco-íris. Sozinha, no lugar, a menina acaba conhecendo o fantasma – numa relação que começa na base do medo.
Para a salvar, ela conta com um trio de marinheiros atrapalhados, que eram do navio de seu avô, Sebastião (Arthur Aguiar), João (Lucas Salles) e Julião (Hugo Germano). Eles formam a parte mais cômica do filme. Confusos, não se furtam de um humor pastelão, cujas cenas ajudam na dinâmica da narrativa, que vai além de Maribel e Plutf confinados à casa na praia.
O filme foi realizado em 3D (e exibido também nesse formato, e no convencional), e essa é, realmente, uma das poucas vezes que o efeito realmente se justifica. A profundidade traz textura às imagens, além de reforçar o ar etéreo dos fantasmas – cujas cenas foram filmadas debaixo d’água para captar seus movimentos de uma forma peculiar. Na visão da diretora, no ar os fantasmas se moveriam com a mesma resistência que nós, humanos, nos movemos no fundo de uma pisciana. É um detalhe que acrescenta mais uma camada visual a Pluft, O Fantasminha.
A mensagem da peça, que também chega ao filme, é a da compreensão da diferença, a aceitação do outro conforme ele é. Svartman incorpora isso sem tornar o filme uma lição para o público infantil e, como no original, isso chega de forma divertida e esclarecedora. Além disso, qualquer adulto que, por motivo de nostalgia, vá assistir ao filme, deverá reencontrar ali seu próprio Plutf. Afinal, ao longo das mais de cinco décadas (a montagem original é de 1955), cada um ou cada uma criou seu fantasminha pessoal.
