Muito antes de Benedetta, o cinema polonês já havia produzido Madre Joana dos Anjos, filme de Jerzy Kawalerowicz que ganhou o Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes de 1961. Aqui, o cineasta parte de um episódio verídico, acontecido na França do século XVII – que também rendeu o livro Os demônios de Loudon, de Aldous Huxley, e uma adaptação de Ken Russell, Os Demônios, de 1971.
A trama, localizada agora no interior da Polônia, passa-se depois da condenação à fogueira do padre Urbain Grandier, investigado por seduzir freiras e acusado de bruxaria por todo o convento que, supostamente, está possuído pelo demônio. O filme acompanha o padre Suryn (Mieczyslaw Voit), este realmente piedoso e fiel, que tenta exorcizar as freiras.
Madre Joana (Lucyna Winnicka) diz estar possuída, cita versos bíblicos sobre monstros que controlam seu corpo e incita as colegas a dançarem pela catedral. Na mente dela, claramente, existe uma batalha entre seus impulsos mais humanos e sua religiosidade. Enquanto isso, Suryn também começa a questionar sua fé, uma vez que seu exorcismo não funciona.
Kawalerowicz começou sua carreira seguindo os preceitos do cinema de realismo social. Em meados dos anos de 1950, foi diretor artístico do estúdio polonês KADR, que contava com diretores como Andrzej Wajda, Andrzej Munk e Tadeusz Konwicki. Porém com a morte de Stalin, uma nova perspectiva artística se abriu a esse cineasta, e é aí que Madre Joana dos Anjos se encaixa.
Bem longe das amarras realistas, o filme abraça a fantasia e a loucura sem pudores. Muito disso se deve à interpretação magnética de Lucyna Winnicka como a personagem-título. O horror que Kawalerowicz retrata está longe da festa gore que se tornou comum, com vômito jorrando e cabeças girando. Não que O Exorcista, de William Friedkin, não seja bom – mas aqui tudo é mais sutil, quase bergmaniano.
Mais do que investigar questões católicas, sobre possessão e castidade, Madre Joana dos Anjos se interessa pela dimensão humana e material, usando elementos metafísicos para explorar aqueles mais terrenos como o amor. O próprio diretor comentou que este é um filme sobre os dogmas, os pesos a que pessoas se submetem, e acabam anulando sua própria identidade.
