20/07/2026

Nascida na Suíça, depois passando pela Hungria e Romênia, em fuga dos nazistas, Claudia Andujar viveu um tempo nos EUA, para finalmente radicar-se no Brasil desde os anos 1950. Aqui descobriu sua vocação para a fotografia, que se tornou sua profissão, e abraçou, desde os anos 1970, a causa da proteção aos Yanomami, ao lado do xamã e líder Davi Kopenawa.

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O encontro entre Claudia Andujar e Davi Kopenawa pareceria, à primeira vista, improvável. Ela, nascida na Suíça, em 1931 e, desde então, passando pela Romênia, Hungria, EUA e até chegar ao Brasil, sobrevivendo à perseguição nazista e tornando-se uma respeitada fotógrafa. Ele, nascido na Amazônia, em 1956, xamã, escritor e líder Yanomami. Conhecendo-se nos anos 1970, surgiu entre essas pessoas tão diferentes uma amizade e união que forjaram um dos esteios da luta do povo Yanomami, tanto para simplesmente continuar a existir como para defender sua terra, o que é um dos principais temas do documentário Gyuri, de Mariana Lacerda. 
 
Deixemos que o espectador descubra por si, no filme, quem é este Gyuri, uma figura fantasmática na vida de Claudia, que relata a passagem na primeira parte, em que rememora sua infância para o filósofo Peter Pál Pelbart, expressando-se num húngaro cujas palavras ela eventualmente esquece. Atravessando países e línguas, Claudia foi ao encontro de muitas experiências e realidades, nenhuma tão marcante para ela quanto a comunidade Yanomami, cujas lutas, como a demarcação de terras, ela abraçou. Davi, que ela conheceu jovem, como mostram algumas das fotos que fez dele, a elogia, dizendo que ela é capaz de colocar-se no lugar do outro. Por isso, foi capaz de fazer as fotos que fez deste povo, que correram o mundo, expondo com sensibilidade o cotidiano destes seres da floresta, chamando a atenção para a importância de sua sobrevivência.
 
Um outro interlocutor precioso deste reencontro de Claudia com Davi, na aldeia Demini, ocorrido em 2018, é o missionário leigo e ativista Carlo Zacquini, outro participante desta convivência ao longo de muitos anos e que lembra as inúmeras ameaças aos indígenas nos tempos da ditadura de 1964 - como a construção da Perimetral Norte, que trouxe doença e morte a tantos Yanomamis. Ouvir essas conversas é lembrar da resistência de todos os envolvidos, que continua a ser tão fundamental nestes novos tempos de ameaças aos Yanomamis, por ações ou omissões governamentais.
 
Mesmo com seu território demarcado desde maio de 1992 - e a comissão de demarcação foi fundada em 1978 por Claudia e Carlo também -, os Yanomami não estão seguros, com invasões de garimpeiros e madeireiros sendo denunciadas a todo momento. A luta de Davi e Claudia continua urgente como sempre. E o filme é um digno documento a materializar as possibilidades de troca entre pessoas que vieram de lugares e vivências tão diferentes e encontraram entre si o território comum da humanidade. .

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