04/06/2026
Drama

Aos nossos filhos

Vera militou na luta armada contra a ditadura dos anos 1960 e 1970, foi presa e torturada. Na maturidade, dirige uma ONG dedicada ao cuidado de crianças órfãs soropositivas. Mas não consegue entender a obsessão da filha, Tânia, casada com outra mulher, por ter um filho por inseminação artificial. Um segredo do passado de Vera reemerge.

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A dramaturga Laura Castro escreveu para Marieta Severo sua peça Para Nossos Filhos. Mas, por ocasião da montagem, a agenda da atriz não permitiu que ela interpretasse Vera, uma das protagonistas, papel que acabou ficando para a portuguesa Maria de Medeiros. Uma feliz combinação de eventos permitiu que Marieta assumisse finalmente o papel, no filme homônimo dirigido por Maria - e transborda na tela o acerto desta escolha. 
 
Marieta é uma das melhores atrizes de sua geração e uma das boas razões para assistir ao filme. Ela entra com naturalidade na pele de Vera, uma ex-integrante da luta armada contra a ditadura militar, sobrevivente da tortura e da prisão num dos períodos mais obscuros da história do Brasil. Na maturidade, ela dirige uma ONG numa comunidade carioca, dedicada ao cuidado de crianças órfãs soropositivas, uma escolha que ainda não se sabe que representa uma compensação por um filho perdido.
 
Procurada por Sergio (Cláudio Lins), filho de uma antiga companheira de prisão décadas atrás, Vera finalmente começa a encarar este fantasma do filho nascido na cela, em condições inomináveis. Um segredo que ela esconde do ex-marido, Fernando (José de Abreu), e da filha, Tânia (Laura Castro), por absoluta impossibilidade de olhá-lo de frente.
 
Um dos aspectos mais interessantes do roteiro de Maria de Medeiros e Laura Castro é contrapor as contradições de mãe e filha, que se apóiam em diferenças geracionais, políticas e também de classe, num Brasil às vésperas de entrar na soturna era Bolsonaro. Progressista em tantas questões, sensível à desigualdade social do país, Vera mostra-se desconfortável, eventualmente intolerante, com a homossexualidade da filha, que há 15 anos tem um relacionamento com Vanessa (Marta Nóbrega). O projeto das duas de gerarem um filho com inseminação artificial permite ao filme falar de outras coisas, tangendo a questão da maternidade e também as diferenças de valores entre mãe e filha. 
 
Lidando com tantas crianças ansiosas por um lar adotivo, Vera tem dificuldade de entender a fixação da filha por gerar uma criança artificialmente, inclusive pelo alto custo do projeto, que já falhou algumas vezes. Laura, por sua vez, não consegue penetrar no ideário da mãe, fruto de uma geração que batalhou na militância  contra a ditadura. Criadas durante o período democrático que se seguiu a isso, Laura e Vanessa mostram-se integrantes de uma geração bem menos engajada, exceto nas causas identitárias, e desfrutando dos efeitos de um certo aburguesamento autocentrado.
 
A tolerância de Vera é mais uma vez testada quando um casal gay, Pedro (Aldri Anunciação) e Antônio (Ricardo Pereira), se interessa por adotar um dos meninos da ONG, Caíque (Andrei Cardoso), pelo qual ela tem especial carinho. Mas é, em última análise, uma preocupação sobre o ambiente burguês deste possível lar que a faz temer pela adoção do menino.Estas nuances dão à personagem de Vera contornos de uma riqueza maior, tornando-a a mais humana e crível de todo o elenco.
 
Um desafio maior, dentro do filme, é a evolução do relacionamento de Vera com Sergio, personagem que, num determinado momento, assume um outro caráter - semelhante ao que se viu, por exemplo, no drama Hoje, de Tata Amaral. Esta ambiguidade cria uma das surpresas de um filme irregular, com sequências eventualmente mal-resolvidas - como na invasão da comunidade pela polícia -, mas de modo algum retira o interesse numa história que confronta o passado remoto e o recente numa pequena radiografia de um país dilacerado entre divisões e contradições.  
 
A presença de Denise Crispim, ex-presa política e protagonista do documentário Repare Bem, dirigido por Maria de Medeiros, como uma das personagens na ONG reforça também um elemento de verdade e aponta onde está o coração da diretora e do filme.
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