Na véspera do ano 2000, o cineasta Abderrahmane Sissako, natural da Mauritânia e que vive na França, retorna à pequena vila de Sokolo, no Mali, para reencontrar o pai. Numa carta, diz ao velho que deseja filmar a vida na aldeia. "Logo será o ano 2000 e nada terá melhorado", lamentou.
E o filme feito em Sokolo, parte do projeto Missão para Comemorar o Ano 2000, é um retrato fiel de suas suspeitas. Isolados numa região desértica no coração da África, os habitantes de Sokolo acompanham a virada para o ano 2000 como mais um dia monótono em suas vidas. O sol continua implacável, não há emprego para todos e os pássaros estão destruindo as plantações de arroz, a única cultura de subsistência do povoado. Colonizado pela França, Mali é considerado um dos países mais pobres do mundo.
Sissako passa a circular de bicicleta pelas ruelas de terra batida do lugarejo pobre e mostra a vida de algumas pessoas em seus afazeres diários: uma bela jovem que também passeia de bicicleta, o barbeiro, o fotógrafo, os funcionários do posto telefônico, as mulheres tirando água do único posso das redondezas. E para todas essas pessoas o dia passa em câmera lenta, lentíssima.
O locutor de uma improvisada estação de rádio comunitária lê para seus poucos ouvintes trechos de livros de autores que valorizam a cultura africana. Entre uma leitura e outra, entrevista pessoas que reclamam de seus problemas. Algumas vezes coloca no ar a transmissão de uma rádio francesa com seus comentários sobre a passagem de ano. Enquanto o sol castiga o povo de Sokolo, a locutora parisiense fala do tempo ameno na capital francesa e comenta os preparativos para a maior festa do ano. Uma mulher entrevistada no Japão prevê: "A virada do milênio não vai mudar nada na vida das pessoas. Tudo continuará igual". Mais adiante ela aconselha: " Sejam zen". Sentados em suas cadeiras na sombra, observando o tempo passar, não resta aos homens e mulheres de Sokolo outro consolo.
