03/06/2026
Drama

Clara Sola

Numa cidadezinha do interior da Costa Rica, Clara, 40 anos, vive isolada por sua mãe, Fresia, e na companhia apenas de sua sobrinha, Maria. Supostamente, anos atrás, Clara viu a Virgem Maria e tem poderes de cura, sendo que sua mãe cobra por suas bençãos. A chegada de um forasteiro agita sua pulsão sexual, assim como a da sobrinha, colocando em risco esta ordem.

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Exibido na Quinzena dos Realizadores em Cannes e grande vencedor da Mostra de São Paulo 2021, Clara Sola é um exemplar raro e bem-sucedido do escasso cinema costarriquenho. Em seu primeiro longa, a diretora e roteirista Nathalie Álvarez Mesén expressa um singular domínio de cena para retratar uma história em que se misturam violência de gênero, atavismo religioso e atraso cultural sem perder de vista a complexidade humana de quem as exerce.
 
Há um toque feminino na fotografia da sueca Sophie Winqvist que permite apoderar-se deste universo claustrofóbico de uma cidadezinha rural, num sítio que é a morada e a verdadeira prisão de Clara (a também estreante e premiada Wendy Chinchilla Araya). Aos 40 anos, dotada de um suposto dom milagreiro, depois de uma alegada visão da Virgem Maria, Clara é mantida nesse lugar, sob a severa vigilância de sua mãe, Fresia (Flor María Vargas Chávez), num ambiente que evoca as histórias de García Lorca. Desse núcleo familiar, faz parte ainda a sobrinha Maria (Ana Julia Porras Espinoza), adolescente que prepara sua festa de 15 anos.
 
Os sinais do despertar sexual da sobrinha, acionados pela chegada do jovem Santiago (Daniel Castañeda Rincón), são gatilhos para que Clara expresse também a sua sensualidade reprimida, desencadeando um dos fios de tensão da história, um roteiro original da diretora em parceria com María Camila Arías.
 
Um êxito para a proposta do filme é assegurar um vínculo entre a explosão das sensações de Clara com a natureza ao seu redor, já que ela se conecta com as plantas e os animais como se fossem uma extensão de seu próprio corpo, inclusive os insetos e mais ainda a égua Yuca, que a segue por todo canto e só a ela parece obedecer. Contrastando com esta adesão natural de Clara, está a opressão da mãe ignorante e moralista que a explora, recebendo dinheiro e presentes em troca das bênçãos da filha, mas recusando-se a tratar de um grave problema na coluna vertebral dela.
 
Polarizada numa espécie de rivalidade muda com a sobrinha, que é correspondida nas atenções de Santiago, Clara vai viver na festa dos 15 anos de Maria um grande embate contra todo este mundo que insiste em vê-la como deficiente mental e impõe amarras à sua vontade.
 
Contando com a entrega de um empenhado elenco não-profissional - a protagonista é dançarina, o que a ajuda a expressar muitos sentimentos de outra forma intraduzíveis -, a diretora realiza uma estreia segura e promissora, num filme que exige compromisso do espectador para conectar-se com um universo no limite do realismo mágico.
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