08/06/2026
Terror Suspense Comédia

Morte. Morte. Morte.

Enquanto esperam a passagem de um furacão, um grupo de jovens ricos se reúnem numa mansão. Começam a jogar uma brincadeira na qual pessoas precisam se fingir de mortos. Porém, um morte real acontece, levando todos a um estado de pânico e paranóia.

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Gêneros como a ficção científica e o terror levam uma vantagem sobre os dramas estritamente realistas ao poder romper as regras da realidade, criando seus próprios universos. Os melhores exemplares são aqueles capazes de exagerar o nosso mundo, colocando, assim, uma lente de aumento sobre a sociedade. Morte. Morte. Morte. é um exemplar disso.
 
O longa de Halina Reijn faz exatamente isso com a juventude de hoje: da necessidade de autoexposição ao ativismo exagerado, passando por todos os cuidados com a linguagem do politicamente correto, a fácil manipulação e a ingenuidade coberta por um verniz de boa vontade e tecnologia. Tudo isso leva alguns a chamá-los de "flocos de neve". Mas o filme é esperto o suficiente para direcionar-se para a sátira social, sem passar a mão na cabeça nem detonar gratuitamente seus personagens.
 
A protagonista aqui é Bee (Maria Bakalova, de Borat 2), jovem imigrante que, com sua namorada, Sophie (Amandla Stenberg), vai passar um final de semana na mansão de um amigo podre de rico, David (Pete Davidson). As duas começaram a namorar há pouco mais de um mês, e Sophie está claramente muito mais apaixonada que Bee.
 
Logo na chegada, elas não são muito bem recebidas pelas demais: Jordan (Myha'la Herrold), de uma personalidade meio mandona; Emma (Chase Sui Wonders), aspirante a atriz e namorada de David; Alice (a ótima Rachel Sennott, de Shiva Baby), e seu “namorado” mais velho, Greg (Lee Pace), que conheceu há alguns dias num aplicativo.
 
Jordan reclama que Sophie não confirmou no grupo que ia passar o final de semana – quando se espera, aliás, um furacão. Começam já de cara as ligações do filme com um presente hiperconectado. O roteiro da estreante Sarah DeLappe – a partir de um argumento de Kristen Roupenian, famosa pelo conto Cat Person – tem um olhar acurado para o presente, para a maneira como os jovens se relacionam com a tecnologia como mediadora dos afetos.
 
Transitando entre a comédia, o suspense e o terror, Morte. Morte. Morte usa as regras do subgênero slasher para investigar a medida em que seus personagens se ligam uns aos outros e, acima de tudo, seus instintos de preservação pessoal. Surgem daí cenas hilárias, quando o excesso de politicamente se torna ridículo diante de toda a situação. Do se abrir demais, o oversharing, ao gaslighting e silenciamento, Reijn mostra como essas palavras, aos poucos, vão perdendo o sentido e acabam banalizadas ao serem usadas sem qualquer critério.
 
O catalizador das mortes do título é um jogo no qual alguém “mata” outra pessoa no escuro, e, depois, ao final, é preciso descobrir quem é o assassino. Enquanto esperam o furacão, a brincadeira é apenas um passatempo, mas depois se torna real. A primeira morte, com o personagem mais dispensável do filme, desencadeia a avalanche de sangue que cobre as personagens, eliminadas uma a uma.
 
Não deixa de ser também um filme sobre a cultura do cancelamento. Cada um ou uma dos/das sobreviventes são o/a assassino/a em potencial, transformando de uma hora para a outra o que as amigas pensam dele/dela. Um julgamento rápido e sem critério que, mais cedo ou mais tarde, pode se provar equivocado, mas sem chance de reparação.
 
Combinando gêneros e testando seus limites, o filme observa com picardia uma juventude fechada em si, disposta a lacrar e ouvir os outros com respeito e empatia – mas, para que isso funcione, é necessário um pouco mais de sagacidade. Para a cena final, Morte. morte. morte. reserva, talvez, sua maior ironia e sua maior gargalhada.
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