Filha de uma psicóloga branca e um pai senegalês que nunca conheceu, Ivie cresceu num ambiente branco, tendo como melhores amigos, Ingo, com quem ela trabalha numa clínica de bronzeamento, e Anne, com quem divide um apartamento. Um dia, é procurada por uma meio-irmã que desconhecia, Naomi, que quer que ela viaje com ela para o Senegal para o funeral do pai das duas.
- Por Neusa Barbosa
- 10/10/2022
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Questões de gênero e racismo entram pela narrativa de Preciosa Ivie, filme da diretora Sarah Blabkiewicz que mergulha na história de duas meio-irmãs alemãs que compartilham um pai senegalês.
Ivie (Haley Louise Jones) e Naomi (Lorna Ishema) não se conheciam até a idade adulta. Filhas de mães diferentes, a primeira nasceu em Leipzig, a segunda, em Berlim. O pai, Amadou, é uma figura ausente da vida delas. Mas é justamente a morte dele que desencadeia o primeiro contato entre as duas, proporcionando a possibilidade de retratar dois diferentes envolvimentos com as raízes africanas.
Filha de uma psicóloga branca, Gabi (Anneke Kim Sarnau), Ivie cresceu num ambiente branco e nunca conheceu o pai, nem pensou realmente a respeito de suas origens. O fato de que seus amigos de infância, Ingo (Maximilian Brauer) e Anne (Anne Haug), com quem ela divide um apartamento, a chamem desde sempre pelo apelido “Chocolatinho” nunca realmente a incomodou.
Filha de uma mulher também negra, Naomi tem outra postura diante disso, que se torna um dos pontos de conflito entre as duas meio-irmãs. Naomi toma a iniciativa de procurar Ivie para uma viagem ao Senegal para participar das cerimônias fúnebres dele, como desejam os familiares africanos. As duas, aliás, descobrem que têm outros meio-irmãos espalhados pelo mundo.
Parte da história refere-se a esse despertar de consciência de Ivie sobre sua inconsciência de que a própria cor de pele entra em questão quando ela procura um novo trabalho, por exemplo. Apesar de ter uma formação escolar completa como professora de matemática, física e educação musical para o ensino médio, ela é obrigada a sustentar-se com um emprego como recepcionista na clínica de bronzeamento do amigo Ingo.
Nas entrevistas em escolas particulares, onde Ivie procura emprego, começam a chamar-lhe a atenção o tipo de perguntas um tanto esdrúxulas que lhe fazem. Mas é, finalmente, a convivência com Naomi que a leva a descobrir seu pertencimento a uma comunidade etnicamente diferenciada, não raro no pior sentido, dentro da Alemanha. Naomi, por ter a pele mais escura, costuma ter experiências mais desagradáveis, eventualmente com neonazistas e supremacistas brancos.
A história é bastante sutil e matizada para inserir esses conflitos dentro de uma trama em que a identidade feminina está em primeiro plano. São particularmente saborosas as conversas entre as irmãs sobre suas experiências sexuais, tornando essas personagens mais complexas, amplas, de carne e osso e o filme, mais contemporâneo.
Mesmo sobre a questão do racismo, o filme não pretende ser um manual de militância, discutindo-o com muitos matizes.
