Há uma melancolia cômica que permeia todo o tempo de Os bravos nunca se calam, primeiro longa de Márcio Schoenardie. Com a ação situada numa pequena cidade no Rio Grande do Sul, um irmão e uma irmã investigam a morte misteriosa de seu pai, supostamente causada por um incêndio que, desconfiam, foi criminoso.
Schoenardie, trabalhando com um roteiro de Tiago Rezende, Gabriel Faccini e Tomás Fleck, conjuga os elementos do drama, do policial e da comédia, e encontra na dupla central – Edu Mendas e Duda Menegheti – os intérpretes ideais para Caio e Manoela, que têm temperamento opostos mas precisam se unir em prol de uma causa maior.
Manoela saiu dali, foi para a cidade grande, onde estuda jornalismo por inspiração paterna e está tentando construir uma carreira. Ela volta quando recebe uma ligação sobre o pai, Joaquim (José Rubens Chachá). Em casa, ela reencontra o irmão, gamer amador aspirante a profissional, sem qualquer ambição na vida, meio confuso, mas de bom coração.
Antes mesmo do enterro, os dois são avisados de que o pai escreveu um livro denunciando um suposto esquema de corrupção na cidade. Alguns elementos levam Caio a pensar que o incêndio que matou o pai não foi acidental, e ele convence a irmã a ficar e investigar com ele.
A graça vem exatamente da comédia de erros, de como a dupla tira conclusões precipitadas, embora verossímeis, e o caso se torna uma bola de neve cada vez mais bizarra e perigosa. Apesar da boa vontade deles, o despreparo e o envolvimento emocional com o caso causam uma espécie de cegueira para perceber o que realmente acontece.
O elenco todo está muito bem, mas em especial Mendas, como Caio. Seu jeito carente e frágil, que se esconde num visual juvenil e uma longa barba, o transforma numa figura querida, que é possível perdoar de todos os deslizes – e não são poucos – durante a investigação. Sua falta de atenção proporciona as coisas mais engraçadas do filme. Já a Manoela de Menegheti é uma mulher em sintonia com o presente, forte e empoderada.
De forma sutil, mas precisa, Schoenardie faz aqui seu nome como diretor de longas. Os bravos nunca se calam, o mesmo título do livro de Joaquim, é um filme que, ao seu modo, reverbera como as coisas estão neste país, e o estado do jornalismo que, muitas vezes, só consegue ser bem-feito de forma independente.
