Há um toque de fábula nesta comédia dramática de Anthony Fabian, que tira o máximo proveito de sua magnífica protagonista, Ada Harris, interpretada com brio pela versátil atriz inglesa Lesley Manville - que, em filmes como Trama Fantasma (2017) e Um Ano Mais (2010), oscila de um registro dominador, quase pérfido, no primeiro caso, a uma atrapalhada inocência, no segundo.
Lesley abraça com toda a delicadeza as muitas nuances de Ada, uma pobre mulher inglesa que, em 1957, 12 anos depois do fim da II Guerra, ainda espera a volta do marido, do qual não teve mais notícias - e também ela não se casou. Vive de fazer faxinas nas casas de gente rica, assim como sua melhor amiga, Violet (Ellen Thomas), as duas desfiando um cotidiano proletário, sem grandes provações, mas também não muitas possibilidades de sonhar mais alto.
Tudo muda, curiosamente, quando Ada vê o vestido Christian Dior que uma de suas patroas - das mais relapsas em fazer seus pagamentos - comprou e esconde do marido no armário, até que tenha a coragem de contar a ele. O vestido brilhante passa a encarnar, para Ada, um ponto alto, fora da curva de sua vidinha modesta demais. Ela, que sempre se esforça para resolver os problemas de seus clientes, anulando-se, esquecendo-se de si, parece descobrir que, dentro dela, ainda há uma dimensão de sonho, uma probabilidade de um futuro que escape à mesmice.
Como naqueles velhos filmes de Frank Capra, algumas engrenagens da vida da faxineira parecem tocadas por um tipo de mágica de repente. Ela, que nunca tinha jogado na loteria, ganha um dinheirinho. Finalmente, recebe a notícia da morte do marido em combate e deve receber um acumulado das pensões a que tem direito como viúva. Juntando tudo, ela descobre que pode realizar o sonho de comprar seu vestido e embarca para Paris.
A grande graça desta história - à qual não escapa uma sutil nota política - é ver esta mulher do povo enfrentar, sem preparo prévio, com muita inocência mas também muita intuição e inteligência emocional, as estruturas de um mundo que funciona sempre contra gente como ela. Assim, ao chegar à maison Dior, ela encontra uma inimiga na feroz diretora, Claudine Colbert (Isabelle Huppert), que quer espantar a proletária para bem longe do ambiente, frequentado por ricos, esnobes e as madames mais preconceituosas da suposta alta classe.
No entanto, não faltam também aliados para Ada entre os funcionários da própria Dior, como o contador André Fauvel (Lucas Bravo) e uma das modelos, Natasha (Alba Baptista), e mesmo entre seus clientes abastados, como o marquês de Chassagne (Lambert Wilson). Todos juntos, cada um a seu modo, eles fazem parte de um verdadeiro complô que parece forjado nas estrelas para que Ada consiga, afinal, seu amado vestido - além de viver uma experiência extraordinária em Paris.
Sem dúvida, Ada Harris é um encanto de personagem que, até por estar nas mãos de uma atriz com esta habilidade, nunca perde a coerência, encarnando um empoderamento em ascensão, apesar de sua enganosa aparência de fragilidade – e, o que é melhor ainda, uma mulher de certa idade, desafiando os preconceitos etaristas. O roteiro, baseado em livro de Paul Gallico e assinado por Fabian e Carroll Cartwright, dá uma chance de ouro para que Lesley Manville assuma uma encarnação adorável, numa personagem cheia de nuances melancólicas, corajosas e até mesmo românticas, sem nunca perder de vista uma cativante humanidade. Por conta disso, funciona a contento um filme que parece engajado num esforço de capturar, de novo, a fascinação das plateias pelas possibilidades de o cinema fazer seu público sonhar.
