04/06/2026
Fantasia Aventura Animação

Pinóquio por Guillermo del Toro

Depois de perder o filho pequeno num bombardeio, Geppeto esculpe um boneco de madeira, que ganha vida por meio da magia de uma fada. Chamado Pinóquio, graças à sua ingenuidade, envolve-se uma série de aventuras, enquanto o fascismo começa a tomar conta do país.

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Dada a quantidade de Pinóquios que são despejados nos cinemas e streaming – só nesse ano já foram dois –, não é de se surpreender que a nova versão traga o nome do diretor em seu título, Pinóquio de Guillermo del Toro. Não parece um lance de vaidade, mas sim de personalização e, até certo ponto, de marketing, para mostrar que não se trata de um filme qualquer.
 
E não é mesmo. O mexicano Del Toro é conhecido pelos universos de fantasia e também grotescos que é capaz de criar, em filmes que vão desde o oscarizado A forma da água até o terror A espinha do diabo, passando por O labirinto do fauno, do qual esse Pinóquio está próximo, especialmente pelo viés político dos dois. Assinando o roteiro com Patrick McHale, o diretor localiza claramente no tempo e espaço a história de Carlo Collodi, que se passa em algum momento do século XIX.
 
A Itália do entre-guerras, da ascensão do fascismo, é o palco da história do boneco de madeira cujo nariz cresce toda vez que conta uma mentira, vivendo com “seu pai”, Geppetto (David Bradley), que o criou para se consolar da morte do filho pequeno num bombardeio, quando um avião, cruzando o céu de sua pequena cidade, joga uma bomba para livrar-se do peso que carregava.
 
A versão de 1940 da Disney deixava de fora a maior parte dos elementos sombrios do original, mas Del Toro – dirigindo ao lado de Mark Gustafson, animador de O fantástico Sr. Raposo, de Wes Anderson – apropria-se da história original, mais uma fábula sobre obediência, e avança sobre outros temas: dos perigos dos regimes totalitários ao relacionamento entre pais e filhos.
 
O narrador é o Grilo Falante, dublado por Ewan McGregor na versão original, que, por um acaso do destino, acaba indo morar dentro do peito de Pinóquio (Gregory Mann), tornando-se tanto uma espécie de coração como também a voz de sua consciência. Entalhado num momento de profunda tristeza de Geppeto, Pinóquio ganha vida graças à Fada Azul (Tilda Swinton), uma figura nada lúdica, ao contrário das representações em filmes anteriores. Ele se torna uma espécie de ser imortal, que desce ao mundo dos mortos, conversa com a Morte (novamente Swinton) e volta ao mundo dos vivos.
 
Lances como esse acentuam os elementos fantásticos e também grotescos tão ao gosto do cineasta mexicano. É um filme que transita entre a anarquia e o caos, marcado também pela melancolia – que, para além das experiências pessoais das personagens, é também fruto do momento histórico. Os adoradores do Duce estão por todo lado. O Podestà (Ron Perlman) da cidade começa a perseguir Geppeto, acusando-o de bruxaria, e também Pinóquio, que acaba entrando, ingenuamente, para um circo, onde conhece o macaco Spazzatura, dublado por Cate Blanchett, que emite apenas alguns grunhidos. Ao contrário das outras versões, o Pinóquio daqui não aspira a tornar-se humano. Talvez ele seja ingênuo ou esperto demais para sonhar com isso e tornar-se mortal.
 
A forma do stop-motion acrescenta uma camada de beleza que a animação convencional não conseguiria. É possível ver a profundidade dos veios e a textura da madeira usada para fazer o protagonista. Fora isso, Del Toro transforma o filme, como é comum com ele, numa festa visual que transita entre o colorido e o sombrio, entre o deleite e o medo, transformando assim a história do boneco de madeira em algo extremamente humano.  
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