O Pequeno Nicolau está para a cultura e as crianças (de diversas gerações) francesas como a Turma da Mônica está para as brasileiras. É um tesouro nacional – que nem sempre viaja bem para fora de suas fronteiras, o que é uma pena. Ainda assim, os filmes protagonizados pelo guri francês – cujos livros qualquer pessoa que estude francês como segunda língua já esbarrou ao menos uma vez na vida – fazem certo sucesso, mesmo além de sua terra natal.
O tesouro do Pequeno Nicolau é um roteiro totalmente inédito – ou seja, não é inspirado em nenhum dos livros de René Goscinny (texto) Jean-Jacques Sempé (ilustrações). O diretor Julien Rappeneau escreveu uma história original, em parceria com Mathias Gavarry, com a benção de Anne Goscinny, filha do autor e detentora dos direitos do personagem, cuja aprovação em todos detalhes era necessária para a existência do filme.
Fãs podem respirar aliviados e aliviadas. O longa respeita os personagens e seus perfis e cria uma história em sintonia com as de Goscinny. O mundo do Pequeno Nicolau é aquele em que ninguém envelhece ou morre. Os anos se passam, e todos continuam com a mesma idade. O filme começa apresentando o menino, interpretado por Ilan Debrabant, e seus coleguinhas de escola, sendo que cada um tem o perfil bem marcante – desde o comilão, ao riquinho levemente esnobe, o puxa-saco da professora, o menino pouco esperto.
Em casa, as coisas não são diferentes, os pais são chamados de Papai (Jean-Paul Rouve) e Mamãe (Audrey Lamy). A trama desse novo filme tem como ponto de partida uma complicação na vida tranquila de Nicolau. Seu pai recebe uma promoção e a família deverá mudar para o sul, assim, ele perderá todos seus amigos – para desespero dele e de seus companheiros.
Acontece que, numa visita ao museu, Nicolau e sua turma ficam sabendo que Olaf, o Anão enterrou um tesouro em algum lugar da cidade. A descoberta do baú, repleto de dinheiro e afins, permitiria que o pai dele nunca mais precisasse trabalhar, nem a família tivesse que mudar de cidade.
Ao lado desse fio condutor, Rappeneau introduz outras tramas, como o roubo do apito do inspetor da escola (Grégory Gadebois), ou a crise existencial e profissional da jovem professora da turma, interpretada por Adeline D'Hermy, que é doce e compreensiva demais para colocar seus alunos na linha. Haverá também um eclipse, que poderá ser visto da cidade, o que leva o diretor (Jean-Pierre Darroussin) a criar um concurso na escola: “Sistema solar, sistema escolar” – ele é dado a trocadilhos.
Conjugando com graça e humor esses elementos, Rappeneau cria um filme delicado e divertido, calcado na inocência e criatividade infantil, vista como algo que deve ser incentivado, aliás. Os elementos emotivos – o filme é comovente – são também bem orquestrados sem nunca parecerem gratuitos ou forçados. Assim, O tesouro do Pequeno Nicolau é um filme que honra os personagens e o legado da dupla Goscinny e Sempé, tendo o mérito de apresentá-los a novas gerações de crianças brasileiras.
