04/06/2026
Drama Comédia

France: Sob os holofotes

France é uma jornalista famosa e incisiva, que também quer se manter no topo, não importa o preço, nem que isso implique agir sem ética. Mas sua vida e carreira entram em colapso por conta de um acidente de carro.

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Este talvez seja o filme que jamais se esperaria de Bruno Dumont, cuja obra inclui longas como A Vida de JesusA Humanidade e Mistério na Costa Chanel. Ao mesmo tempo, o longa faz sentido no conjunto de sua obra, como uma sátira à mídia e ao seu entorno. Tem como protagonista Léa Seydoux no papel-título, uma apresentadora, repórter e personalidade midiática ultrafamosa em todo o país e muito rica.
 
Dumont, que também assina o roteiro, entra no mundo da mídia sem rodeios desde a primeira cena, quando France está numa coletiva do presidente da França, Emmanuel Macron. É um trabalho de edição impressionante que “coloca” Seydoux realmente no evento. Mas realismo, na verdade, não é o que mais interessa ao diretor - enquanto o político “responde” à pergunta de France de Muers, ela troca gestos obscenos com sua produtora que está ao fundo da sala.
 
É já nessa cena que o diretor deixa claro seu tom e, para usar uma palavra francesa, a exposée que fará do mundinho da imprensa. France, para usar referências nacionais, talvez seja uma combinação de Sonia Abrão com Gloria Maria. Está interessada no sensacionalismo, mas o faz em horário nobre e de maneira tão envernizada que nem parece sensacionalismo – ao menos na superfície.
 
Na vida pessoal, a protagonista está em crise. A relação com o marido, um escritor (Benjamin Biolay), é tensa, especialmente porque ela ganha cinco vezes mais do que ele. O filho pequeno (Gaëtan Amiel) não lhe dá atenção, nem a respeita. Sua única amiga é sua produtora, Lou (a comediante Blance Gardin, que rouba muitas cenas).
 
France é um filme um tanto desgovernado, mas sua beleza está justamente nisso. Parece abrir diversos caminhos e tomar apenas os desvios que surgem. Num momento de desatenção no trânsito, a protagonista derruba um motoboy (Jawad Zemmar), e se torna alvo dos urubus da mídia – exatamente como ela faz com as outras pessoas, por isso não culpa os colegas. Ela tenta resolver a situação ajudando a família do rapaz.
 
Numa guerra civil num país árabe destruído, ela dirige, entre escombros, a milícia a que entrevista para conseguir as melhores imagens possíveis. Na matéria final, exibida em seu programa, a montagem deixa claro como a mídia manipula imagens e cria as narrativas conforme lhe convém. France é sobre isso também, sobre a manipulação de narrativas e, em certa medida, sobre fake news.
 
Seydoux, uma das atrizes mais requisitadas na Europa atualmente (de filmes de James Bond a Dumont, passando por Wes Anderson), agarra a personagem com gosto, trazendo à tona todas suas ambiguidades e a dúvida entre ser honesta com o público ou ganhar mais dinheiro. Duas coisas que parecem inconciliáveis em France.
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