Igor se tornará a consciência crítica da história, porém, a partir da morte de um dos imigrantes, Amidou (Rasmane Ouedraogo), ao cair de um andaime na construção de uma casa - acidente provocado pela pressa do trabalhador de escapar da fiscalização que chegava na obra. Antes completamente indiferente à sorte desses imigrantes que desfilam diariamente em sua vida, o menino descobre no acidente uma espécie de limite moral para si mesmo, contrapondo o pragmatismo selvagem de seu pai, que oculta o corpo e a notícia da morte da viúva (Assita Ouedraogo), ao mesmo tempo em que faz de tudo para que a mulher, que acabou de chegar de Burkina, na África, saia de sua casa.
Assombrado pela promessa que fizera ao agonizante, de cuidar de sua esposa e filho, Igor torna-se uma espécie de anjo protetor de Assita e seu bebê, assumindo uma postura que o fará entrar em severo conflito com seu pai, empenhado a todo custo em evitar problemas com a polícia. Ao mesmo tempo, a história insere alguns incidentes particularmente elucidativos da intolerância feroz que muitos habitantes do Primeiro Mundo dedicam aos imigrantes - como a cena em que dois motoqueiros, não contentes em urinar na mulher e seu bebê do alto de um viaduto, atacam-nos a bordo de suas motos, destruindo sua bagagem, já que não conseguem atingi-los diretamente.
Como Ken Loach, os irmãos Dardenne não cultivam nenhuma admiração pela ordem mundial criada pela globalização. E são, como o diretor inglês, capazes de colocar o dedo em situações humanas de profunda ressonância. Este trabalho, que antecede os premiados Rosetta (Palma de Ouro em Cannes/99) e O Filho (melhor ator em Cannes/2002 e o único filme dos diretores até agora exibido no circuito comercial brasileiro), constitui um digno exemplo de uma cinematografia empenhada, clara, contundente e que consegue, longe dos apelos fáceis, transpor os limites da emoção sem pieguice e das questões sociais e políticas sem partidarismos.
