Mais do que apenas um filme, Desapega! é uma longa propaganda de uma empresa de comércio eletrônico, que dá o ar de sua graça em alguns momentos do filme, e de forma bem incisiva na reta final. Tomando seu slogan da tal empresa como título, o filme de Hsu Chien é uma ode à satisfação simbólica que temos ao gastar descontroladamente – mesmo que a ideia aqui seja pregar o contrário.
Glória Pires interpreta Rita, uma ex-consumista compulsiva que há algum tempo está controlada, a ponto de ser líder de um grupo de apoio formado por pessoas que estão tentando superar esse problema. Entre eles, está Otávio (Marcos Pasquim), um sujeito viciado em dar presentes. O problema de todos não é exatamente gastar desmedidamente, é não ter dinheiro para manter esse vício.
Na outra ponta da narrativa está Duda (Maísa Silva), filha de Rita, universitária e apaixonada por fotografia, que acabou de conseguir uma bolsa para estudar em Boston, mas tem receio de contar à mãe – especialmente porque ela pode ter uma recaída. O filme mostra que a relação entre as duas é de amizade e muito próxima, e, para isso, se vale da boa química entre as duas atrizes.
Porém, o roteiro assinado pelo diretor e Leandro Matos toma caminhos não apenas previsíveis, como também inconsistentes dentro da narrativa. Duda, que é tão apegada à mãe (e vice-versa), a certa altura, depois de um incidente, para de falar com ela, a ignora. Logo depois, está tudo bem novamente. Não há coesão interna que se sustente com o vai e volta de Desapega!.
Há ainda uma subtrama, envolvendo o escritório de contabilidade de Otávio, incluindo Guto (Matheus Costa), que é contratado como estagiário, ao lado de outros jovens, de quem os veteranos desconfiam, pois poderão ser seus substitutos. Fora a coincidência dos personagens se encontrarem ao acaso, não há muita unidade entre esse plot e o central do filme.
O grupo liderado por Rita é, por sua vez, um catálogo de consumistas com o objetivo de gerar efeito cômico, mas são mais estereótipos ambulantes do que personagens. Gisélia (Malu Vale) é viciada em comprar materiais de escritório; Sylvia (Polly Marinho), só compra perucas; Romulo (Wagner Santisteban) é um ator em ascensão que gasta compulsivamente; e Cibele (Carol Bresolin), uma influencer que mostra todas as suas compras na internet. Com esses perfis, talvez servissem mais como personagens de sitcom.
Glória e Maísa são esforçadas, e as interações entre mãe e filha são genuinamente sinceras. Mas não há como superar as limitações do roteiro e as personagens mal desenhadas que elas têm que sustentar. Ainda assim, as cenas entre elas são as melhores do filme.
