A primeira coisa que chama a atenção no documentário indicado ao Oscar All that breaths é a fotografia de Ben Bernhard, que, na primeira cena, adota um tom que a aproxima do apocalíptico. E é bem acertado para o filme, que tem como tema a relação entre o ser humano e a natureza. É, como bem se sabe, um laço desigual marcado pela exploração de uma das partes. A beleza visual do documentário poderia imprimir uma incongruência entre forma e conteúdo, mas o diretor Shaunak Sen sabe como dosar poesia e horror, filosofia e economia, o conteúdo humano e material criando uma meditação sobre como vivemos no mundo em que vivemos.
E se o Paquistão jogar uma bomba atômica na Índia?, pergunta um rapaz um tanto aflito. Leu isso numa rede social. O outro, cuidando de uma ave, zomba: “Bomba atômica não é brinquedo. Isso não vai acontecer”. O que se segue, ainda no início do documentário, é uma discussão exatamente sobre o fim do mundo e como isso aferia todos os que respiram.
O ar de Deli é tão poluído que pássaros caem do céus e tentam coletivamente sobreviver a esse horror. E os humanos, que parecem ainda menos preparados para essa calamidade? Assim, o documentário entra em questões não apenas de ecologia – afinal, essa não existe apartada do mundo – mas também de economia, política e cultura. O filme explora esse tema de forma sagaz na figura dos irmãos Mohammad Saud and Nadeem Shehzad, que se importam em cuidar de aves, em especial de uma espécie que existe aos milhares na cidade.
Num ritmo próprio, e com imagens impressionantes – tanto da cidade quando das aves –, All that breaths é um filme de urgência partindo da situação de calamidade de um lugar, mas que ressoa em escala global.
