Vinte anos atrás, uma discussão por causa de uma casa causou uma cisão na família Passos. Desde então, a filha mais velha nunca mais falou com os pais e as irmãs. Dona Eneida, a matriarca, tenta até hoje restabelecer contato com sua primogênita. Dirigido por sua filha Heloisa, o documentário acompanha parte dessa jornada.
- Por Alysson Oliveira
- 03/03/2023
- Tempo de leitura 2 minutos
Em seu novo longa como realizadora, a premiada diretora de fotografia Heloísa Passos mais uma vez traz como figura central uma pessoa de sua família. Se em Construindo Pontes seu pai estava no centro, em Eneida a protagonista é sua mãe, cujo nome dá título ao filme.
Se o documentário anterior focava a relação tensa entre Heloísa e seu pai, o engenheiro Álvaro Passos, aqui Eneida tenta reatar os laços com a filha mais velha, Maísa, a quem não vê há há duas décadas. Com a ajuda da diretora, a matriarca busca a filha, tenta a todo custo fazer contato, retomar os laços. As primeiras tentativas em redes sociais se mostram infrutíferas – ela foi bloqueada pela filha. O que teria acontecido para levar a filha a se afastar tão completamente de sua família?
Como ela mesma diz, “o pomo da discórdia” será revelado ainda no começo do filme. É uma situação, como ela frisa, que sempre envolve dinheiro. Heloísa conta que a casa da infância se tornou casa da desavença numa disputa protagonizada pelo pai e marido da irmã, deixando as mulheres de lado. E são elas exatamente que sofrem as consequências desse conflito.
O filme se constrói numa tensão das várias tentativas de contato, esbarrando sempre na negativa da filha em falar com a mãe ou a irmã. Diferente dos embates entre Heloísa e o pai, por posições políticas opostas, aqui há o silêncio, ou, quando muito, os monólogos de dona Eneida, na tentativa de reencontrar a filha. Quando consegue conversar com o marido da neta, rabino e professor de uma escola ortodoxa em São Paulo, parece ter encontrado nele um discreto aliado.
A certa altura, Eneida cita um filme de Douglas Sirk, que viu com a mãe no cinema, na adolescência, Imitação da Vida, no qual, numa das tramas, uma filha rejeita a mãe. A matriarca menciona esse longa exatamente pela ironia da situação que se repete com ela, embora por motivos distintos – no longa americano, a filha de pele clara tem vergonha da mãe negra. A jornada de Eneida, com auxílio de Heloísa, é comovente e repleta de força, desencontros e esperanças, mesmo que essas sejam fugazes. No fim, Eneida é também um documentário sobre as dores e alegrias da maternidade.
