Gil é um fotógrafo israelense que se especializou em fotografias de temas políticos. No caminho para abrir uma exposição, num clube em Haifa, ele é atacado e tem seu carro roubado. No clube, diversos convidados, de diversas origens, se encontram e compartilham seus conflitos, num lugar em que todas as comunidades locais se misturam.
- Por Neusa Barbosa
- 18/04/2023
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Nascido em Haifa em 1950, dois anos depois do estabelecimento do Estado de Israel, o diretor Amos Gitai tem pautado sua obra por tentativas de apreender uma realidade instável com espírito crítico, em filmes como Kadosh, Kedma, O Dia do Perdão e vários outros. Em Uma Noite em Haifa, ele se vale de recursos teatrais, como a rodagem no cenário único de um clube noturno, o Fattoush, em que seus personagens, judeus, árabes, palestinos e estrangeiros, entram e saem, num território em que a eterna guerra da região aparentemente fica do lado de fora - só que está impregnada em cada um dos habitantes locais.
Amparado, mais uma vez num roteiro de sua habitual parceira, Marie-Josée Sanselme, Gitai aposta em planos-sequência, na fotografia cuidadosa do francês Éric Gautier, para inserir seus personagens imersos em questões existenciais que não são privativas de nenhum lugar do mundo. Gil (Tsai Halevi), fotógrafo israelense, chega ao local para inaugurar uma exposição de fotos políticas, organizada pela diretora da galeria local, Laila (Maria Zreik). Ferido na porta, após ser atacado por dois ladrões que levam seu carro, ele é ajudado por Laila, com quem ele faz sexo pouco depois no andar de cima. Uma situação que introduz as complexas conexões de personagens nunca seguros, nunca satisfeitos.
Laila é casada com o dono do clube, Kamal (Makram Khoury), um homem mais velho, poderoso e controlador. As frustrações de Laila espelham as de Hawla (Hawla Ibraheem), a mulher do chef da cozinha Hisham (Hisham Suliman), que pressiona a esposa para ter um filho. Da mesma forma, Naama (Naama Preis), a meia-irmã judia de Gil, sente-se sufocada por seu casamento. No mundo masculino, também há o desejo de partir e romper, especialmente de Gil, quando recebe um convite de expor seu trabalho em Los Angeles.
Outros personagens cruzam-se nos corredores do bar-restaurante, como a radical palestina que tenta extorquir Kamal; um par gay que deve separar-se; e dois estranhos, uma mulher madura e um jovem, que marcaram encontro por um aplicativo e se decepcionam quando se encontram frente a frente. Nada é como esperavam.
Nessas idas e vindas, o filme, que é extremamente bem-fotografado, sobrepõe camadas e temas, que não aprofunda. O clube é, antes de mais nada, um lugar de passagem em que todas as comunidades múltiplas da cidade se misturam, podem conviver por um tempo, mas logo devem partir. Este não é o país, é uma espécie de trégua e bem angustiada de todos os temores que esperam as vidas de todos lá fora. Que utopia, que esperança ainda são possíveis? Este é um filme de perguntas, não de respostas. E o clube, apenas um lugar de passagem.
