A nova velha moda da Disney de reciclar em live-action antigas animações de sucesso e aqui mais uma nada para morrer na praia. A nova versão de A Pequena Sereia, dirigida por Rob Marshall, é tão próxima da original que a primeira pergunta que faz surgir é: pra que? Naturalmente, para ganhar ainda mais dinheiro com um produto que, garantidamente, tem feito altas bilheterias. Fora isso, há pouco que justifique a existência desse filme.
A única coisa que torna esse carnaval marinho suportável é a presença de Halle Bailey como a personagem-título. A jovem atriz foi enormemente criticada quando foi anunciada como Ariel – especialmente por ser negra. Houve até uma campanha ridícula na internet, #NotMyAriel, justificando que a seria do conto original de Hans Christian Andersen era nórdica – como se sereias existissem para ter etnia demarcada. De qualquer forma, Bailey brilha em sua primeira protagonista e salva o longa de ser um completo desastre.
Certamente, o fundo do mar é colorido e vibrante, os animais criados em computação gráfica são fofinhos e divertidos, e as músicas, como é de se esperar, pegajosas. Nem todas do original foram usadas, e o músico Lin-Manuel Miranda, que também assina como produtor, compôs novas canções – embora nenhuma marcante. Continuam se destacando a melosa “Part of your world” e a animada “Under the sea”, que ganhou o Oscar com o filme original de 1989.
Ao centro, uma história, no mínimo, complicada para os padrões de hoje: uma moça – no caso uma sereia que canta – que abre mão se sua voz para ficar com o homem que ama, o Príncipe Eric (Jonah Hauer-King), em terra firme, abandonado o fundo do mar. Para se livrar dessa maldição, ela precisa, sem conseguir falar, fazê-lo beijá-la. A desobediência da sereia despertou a ira de seu pai, o Rei Tritão (Javier Barden), que odeia humanos, responsáveis pela morte da mãe de Ariel. Nem Melissa McCarthy como a invejosa vilã Ursula – uma combinação entre mulher e polvo – tem muito o que fazer a não ser exibir seus tentáculos repletos de lantejoulas.
Como as produções recentes da Disney, o resultado é irregular, transitando entre o sentimentalismo barato e a emoção, fazendo uma parada no porto da cafonice entre as duas pontas. Um outro grande problema em A Pequena Sereia é o fundo do mar. As imagens não são das melhores e, em alguns momentos, parece mal acabadas. Num mundo pós-Avatar 2, que, por mais problemas que tivesse, é inegável sua qualidade de imagens na construção da narrativa subaquática, esse defeito é imperdoável. Aqui não há esse cuidado, por isso, o filme melhora consideravelmente quando Ariel se muda para a superfície.
Nada indica que a Disney irá abandonar a ideia cada vez mais absurda de refazer suas animações em live-action – O Corcunda de Notre-Dame, por exemplo, está programado para os próximos anos –, afinal as bilheterias têm sido altas (e esse também promete excelentes lucros). Mas, cinematograficamente falando, são ideias e imagens pobres que nadam na mesmice desnecessária.
