Krohokrenhum, chefe do povo indígena Gavião, conta às netas a sua história. Das guerras entre os “índios valentes” ao contato com o homem branco, da devastação do contágio ao fim do mundo Gavião, Krohokrenhum encabeça um movimento para reconstruir a memória do seu povo, acompanhado por Vincent Carelli desde as primeiras câmeras em VHS. Concluído após a morte do Capitão, o filme é a devolução póstuma desses registros à comunidade Gavião. No Sesc Digital (de 2/5 até 2/6/2024).
- Por Alysson Oliveira
- 03/05/2023
- Tempo de leitura 3 minutos
A exemplo de Martírio, seu premiado filme de 2018, em Adeus, Capitão, que Vincent Carelli codirige com Tita, é também um filme que demanda atenção e, em certa medida, paciência. Sua construção narrativa tem um tempo próprio, afastado da lógica linear contemporânea. Novamente, o diretor parte de seu trabalho como antropólogo e faz um documentário em primeira pessoa, agora sobre Krohokrenhum, o “capitão” do título, líder do povo indígena Gavião, do sul do Pará, que morreu em 2016, aos 90 anos.
Seu trabalho como indianista o aproximou de Krohokrenhum, de quem fez diversos registros ao longo dos anos, sejam fotográficos ou filmagens. Mas, mais do que isso, eles se tornaram amigos. Aqui, Carelli se despede de um companheiro de lutas. O filme é ao mesmo tempo, uma exaltação da liderança do indígena e um réquiem e homenagem à sua vida de mobilização, que resultou na união do povo Gavião, ao menos até sua morte. “Hoje me deparo com as chaves para compreender as questões que não ousava perguntar quando o Capitão estava vivo”, diz o cineasta em sua narração.
Os diversos tempos de filmagens também são um retrato da transformação da comunidade, seja na maneira física ou emocional. Quando chega, por exemplo, a 2010, 15 anos depois de sua última visita, para filmar o encerramento de um ritual, o diretor se depara com a aldeia com muros e portão, e dois militares checando quem entra e quem sai. Mais tarde, são as igrejas evangélicas que penetram ali, sufocando ainda mais a cultura e espiritualidade dos indígenas. Quando o Capitão, finalmente, se recolhe, várias delas entram ali.
A aculturação parece ser um caminho sem volta. Cada vez mais distante de sua cultura, uma jovem, nos dias de hoje, comenta: “Como está fraca nossa cultura. [...] Antigamente que era bom, não tinha dinheiro...” O povo vive numa espécie de dilema sobre como manter suas raízes, sua tradição, num mundo no qual são cada vez mais cooptados como consumidores. Ainda assim, ela também lembra que Krohokrenhum sempre dizia: “Nós nunca vamos ser Kupên [brancos].” O que também não deixa de ser uma forma de resistência.
Mais do que resgatar a figura e a história de Krohokrenhum, Adeus, Capitão é um filme que aborda temas caros aos povos indígenas cujas lutas, em sua essência, são pela autonomia política e financeira. Em meio ao descaso do governo e disputas com o agronegócio, cada vez mais desiguais, foi o Capitão quem conseguiu unir os três povos distintos do grupo Gavião. Sua morte, como mostra o filme, desestabilizou-os profundamente. Nunca mais surgiu uma liderança tão forte e agregadora. “Se pudesse o Capitão nunca morrer, para nós, era bom”, diz uma jovem. Uma constatação ilustrada pelo filme o tempo todo.
