04/06/2026
Documentário

De Humani Corporis Fabrica

Cinco séculos atrás, o anatomista André Vésale abriu o corpo humano pela primeira vez. Esse documentário desvenda o corpo humano no cinema, mostrando seu interior e também o interior de um hospital na França.

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Os documentaristas Lucien Castaing-Taylor e Verena Paravel são conhecidos pelos seus filmes intensos – como Caniba, sobre um canibal japonês e sua relação com seu irmão. Em De humani corporis fabrica, eles voltam suas câmeras para dois interiores: o primeiro, o de um hospital em Paris, e também para o interior do corpo humano, acompanhando procedimentos médicos.
 
Talvez seja desnecessário dizer,  mas sempre é bom avisar: esse é um filme forte, com entranhas, sangue e outros fluidos corporais mostrados em primeiro plano. Porém, não é um documentário sensacionalista ou com imagens gratuitas. Captadas com microcâmeras usadas pelos médicos em procedimentos invasivos, essas cenas são impressionantes na capacidade que Castaing-Taylor e Paravel têm de encontrar poesia nos tecidos humanos.
 
A dialética que eles estabelecem é entre o hospital – sobrecarregado, com poucos funcionários, equipamentos e materiais – e o inevitável envelhecimento do corpo. Se por um lado De humani corporis fabrica nos avisa que a todo segundo morremos um pouco, ao final também lembra que o corpo é nossa fonte de prazer – especialmente físico.
 
De uma cesariana de emergência a uma cirurgia de próstata na qual o médico se desespera – chegando a dizer “Não é minha área, eu nem devia ter começado isso” – a dança da vida e da morte está presente em cada momento. É particularmente dolorosa, no entanto, uma cena em que uma enfermeira fala sobre as dificuldades do hospital e as enfrentadas por alguns pacientes, como um rapaz de 22 anos com um câncer sem tratamento: “Não sou religiosa, mas isso só pode ser carma”.
 
Outro momento impressionante do filme remete ao clássico do cinema Um cão andaluz, com uma cirurgia ocular. A beleza da máquina humana é vista aqui, no entanto, quase como um sonho, um delírio, fugindo do mero grotesco. Sem muito contexto das cirurgias realizadas, às vezes cabe a nós tentar decifrar qual parte do corpo está na tela. Parece um esôfago, mas é um pênis, descobrimos num momento, por exemplo.
 
De humani corporis fabrica toma seu título de um atlas fisiológico do século XVI, de Andreas Vesalius, considerado um dos livros científicos mais influentes da história. Era um momento de grandes avanços e descobertas científicas que repercutem até hoje. Para quem não é médico, enfermeiro ou de áreas afins, o documentário é também uma fonte de descoberta e de maravilhas, potente por suas belas imagens e impressionante em sua percepção da fragilidade humana.
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