Há um atraente tom de farsa esperta nesta nova comédia de François Ozon, O crime é meu, em que o diretor buscou inspiração numa peça de 1934, escrita com bem outras intenções por Goerges Berr e Louis Verneuil. Mantendo a época e o eixo da trama em torno de um crime, Ozon sacode a poeira misógina que impregnava o original, compondo um delicioso tour de force feminista em torno de uma das mais promissoras jovens atrizes do atual cinema francês, Nadia Tereszkiewicz e Rebecca Marder, à qual irá somar-se na porção final a veterana Isabelle Huppert, numa das encarnações mais engraçadas de sua longa e celebrada carreira.
Madeleine (Nadia Tereszkiewicz) é uma atriz à procura de papéis, que divide um pequeno apartamento com a amiga Pauline (Rebecca Marder), por sua vez uma advogada em busca de clientes. Por conta dessas dificuldades, as moças vivem com o aluguel atrasado. Num dia em que Madeleine foi candidatar-se a um papel num encontro com um poderoso produtor, Montferrand (Jean-Christophe Bouvet), ela é vítima de uma tentativa de estupro. Pouco depois, o produtor é encontrado morto e ela é acusada do assassinato.
O primeiro toque farsesco é como a narrativa se apropria desta situação potencialmente desastrosa para Madeleine, transformada, graças à habilidade de Pauline, que assume sua defesa, numa grande oportunidade para ambas. Assim, o tribunal, que atrai todas as atenções da mídia, torna-se um palco em que o talento de Madeleine, graças ao texto criado por sua advogada, brilhará como nunca, driblando o machismo vigente - começando pelo promotor que enxerga na ré uma potencial inspiradora de crimes semelhantes, nada interessado no fato de que ela procurava defender-se de um estuprador muito provavelmente contumaz, graças à sua posição de poder.
Absolvida, Madeleine tem diante de si uma carreira brilhante, disputada pelo teatro e pelo cinema, trajetória repetida por sua fiel amiga Pauline em sua respectiva área de atuação. A situação reverte até o abandono de Madeleine por seu antigo namorado, André Bonnard (Édouard Sulpice), que volta para ela, abrindo mão de um casamento de conveniência arranjado por seu rico mas arruinado pai industrial (André Dussollier).
Com diálogos saborosos e atores no topo de seu jogo, o filme mantém seu ritmo com as intervenções de personagens secundários, como o rico Fernand Palmarède (Dany Boon) e, mais ainda, de uma personagem-bomba do quilate de Odette Chaumette (Isabelle Huppert). Atriz veterana e decadente, Odette aparece na casa de Madeleine e Pauline reivindicando o crime assumido pela primeira. Na pior, Odette chantageia as duas para receber uma alta soma em dinheiro, caso contrário ameaça procurar o juiz encarregado da investigação (Fabrice Luchini) e desmascarar as duas.
Talvez o melhor de tudo seja o tom zombeteiro que o experiente Ozon consegue imprimir a toda a história, expondo o caráter de espetáculo que contamina instituições como a justiça, o meio empresarial e a família, o que garante a suas improváveis heroínas o jogo de cintura necessário para dar a volta por cima. E o fato de que nos identifiquemos tanto com elas comprova o quanto, afinal, a misoginia ainda resiste em nossos tempos. Podemos perfeitamente entender como é difícil para duas moças sozinhas e independentes viverem num mundo em que as regras e mentalidades são tão dominadas pelos homens. E também nos deliciarmos com a malícia e o savoir faire dessa dupla.
