03/06/2026
Drama

Depois de ser cinza

Três mulheres que nem se conhecem, têm uma coisa em comum: elas se envolveram com o mesmo homem em momentos distintos, e isso transformou suas vidas.

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Depois de ser cinza é um filme com uma dissonância interessante. Ele conta a história de três mulheres que se envolveram com o mesmo homem, Raul (João Campos). Mas a narrativa, embora seja delas, é dada pelo ponto de vista dele, ou seja, a construção das personagens femininas passa pelo olhar masculino, o que diz muito sobre o estado e as políticas da relações de gênero contemporânea.
 
A primeira delas é Isabel (Elisa Volpatto), que Raul conhece na Croácia, para onde ele vai participar de um congresso de antropologia, sua área de estudo. Ela vive lá há tempo suficiente para se comunicar na língua local, o que acaba o ajudando numa viagem de carro, em que ela vai junto. A segunda é Suzy (Branca Messina), uma colega com quem tem um relacionamento um tanto livre e aberto. Ela, também uma acadêmica, vive sob o peso da figura paterna, que já morreu, um homem brilhante na mesma área que ela. Todos se referem a ela como filha do fulano, sem que ela nunca consiga, por si mesma, mostrar seu valor.
 
A terceira mulher é a terapeuta Manoela (Sílvia Lourenço), com quem Raul acaba se casando, mas uma tragédia marca essas duas pontas narrativas e acabará levando o protagonista para longe do Brasil.
 
Dirigido por Eduardo Wannmacher, com roteiro de Leo Garcia, o filme não se constrói em três partes cronológicas, mas sim conectando aos poucos, de maneira embaralhada, a trajetória de Raul, que transita entre a Croácia e Porto Alegre. É um exercício de linguagem que pede cumplicidade do público para montar o quebra-cabeças que constitui Depois de ser cinza.
 
O que é curioso aqui é como tudo é filtrado pelo prisma masculino. A opção narrativa faz sentido dentro do filme, mas limita um pouco as personagens femininas que são, no fundo, parte da fantasia ou até mesmo fetiche do protagonista. Elas transitam entre a meretriz e a santa, os dois arquétipos mais usados para mulheres na ficção, especialmente quando criadas por homens. A bem da verdade, nenhuma das três é apenas uma coisa para Raul, o que traz certas nuances a elas. Ajuda também o fato das três atrizes serem bem esforçadas na construção dessas figuras – em especial Sílvia Lourenço, que se destaca.
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