18/07/2026
Comédia

O porteiro

Waldisney é um porteiro de bom coração, e todos no prédio em que trabalha parecem abusar da boa vontade dele. Quando acontece um assalto no prédio, ele vai parar numa delegacia, onde conta toda sua história ao delegado.

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A comédia brasileira é um forte revelador das questões de classe. Como, em sua maioria, os filmes são feitos por cineastas de classe média, o olhar é sempre enviesado, de cima para baixo, mesmo que não seja consciente. Não há como fugir de sua classe social e, nesse sentido, os filmes são reveladores. O Porteiro é uma comédia, como diz o título, sobre um homem da classe trabalhadora, daqueles que moram num apartamento pequeno no prédio onde trabalham, precisam ser simpáticos e solícitos com todos os moradores e são explorados.
 
Dirigido por Paulo Fontenelle, com roteiro escrito por ele, o longa baseia-se num monólogo de sua autoria que fez enorme sucesso, protagonizado por Alexandre Lino, que também faz o personagem no longa. O texto teatral consistia apenas numa reunião de condomínio, que Waldisney (a sílaba tônica é o “ney”) comandava enquanto o síndico não chegava. O filme, por sua vez, expande esse universo e é amarrado por um depoimento do protagonista a um delegado (Maurício Manfrini), depois de uma confusão no prédio.
 
Lino tem um bom timing para comédia, é carismático e gentil, como o personagem demanda. Pena o filme, como um todo, não o ajudar. Seu personagem é o clichê do porteiro pelos olhos benevolentes e romantizado, construído pelo olhar de moradores de bom coração. Waldisney tem bom coração, trabalha feliz, mesmo virando a noite e o dia sem descanso, pois precisa juntar dinheiro para bancar a faculdade da filha caçula. Sua mulher, Laurizete (Daniela Fontan), só pensa em dormir, por isso, além de tudo, ele também faz os serviços domésticos.
 
Os moradores do prédio são o catálogo de tipos cômicos de televisão, sem qualquer delineamento maior do que uma característica. Assim, temos: a moradora legal, mas exploradora (Rosane Goffman), a jovem estudante de humanas com jeito de vida alternativo (Aline Campos), o novo síndico mal-educado (Bruno Ferrari), e por aí vai. Todos tipos que irão dar problemas ao porteiro.
 
Esse entra e sai de personagens, amarrado pela presença do protagonista, dá ao filme um ar de piloto de sitcom do Multishow, que é, mais ou menos, a aparência de boa parte das comédias nacionais recentes. Some-se a isso a ausência de ritmo. Depois de falas (supostamente) engraçadas há um silêncio, como deixando um tempo para a plateia rir, para que, só então, a cena seja retomada. Pode ser uma herança das origens teatrais do filme, ou só um problema de direção mesmo.
 
As situações que deveriam ser cômicas se repetem diversas vezes e, se eram engraçadas, num primeiro momento, com o tempo, tornam-se enfadonhas. Uma delas, por exemplo, é logo no começo, quando Laurizete está brigando com marido, e, do nada, surge o lutador José Aldo, um morador do prédio, que tenta apartar a briga, mas leva uma chave de braço da mulher e fica imobilizado. A graça está (ou estaria) em um lutador profissional apanhando de uma mulher sem qualquer preparo físico. Depois disso, toda vez que ela está ameaçando bater em alguém, José Aldo aparece, novamente do nada, e Waldisney pede ajuda a ele, mas o lutador foge. Essa situação se repete incontáveis vezes – uma gag que não atinge o objetivo.
 
É nessa toada que segue O Porteiro, com seu humor estridente, e aos trancos e barrancos. Não há muita unidade nas cenas, e o elenco não consegue se elevar além do básico de seus personagens. É uma pena, pois há, claramente, potencial em Lino, que, também, evidentemente, tem muito carinho pelo personagem. Ainda assim, é um filme que não acontece, que gira em falso o tempo todo, em busca de um humor que não consegue encontrar. O que sobra é a fantasia pseudo-romântica da classe média sobre seus subalternos.
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