Diretor conhecido pela sutileza, Alexander Payne chega ao oitavo filme em Os Rejeitados, em que, a partir de um roteiro de David Hemingson, exercita mais uma vez seu olhar afinado para os outsiders.
Vinte anos depois do criativo Sideways - Entre Umas e Outras (2004), Paul Giamatti retoma a parceria com Payne, para assumir o papel de Paul Dunham, professor de História Antiga no internato Barton, uma escola masculina para herdeiros da classe alta em New England.
O ano é 1970, muito antes da aparição de celulares e redes sociais, num ambiente povoado por adolescentes ricos e, não raro, problemáticos. Entre eles, destaca-se Angus Tully (o estreante Dominic Sessa), um aluno inteligente, arrogante e bastante antissocial com seus colegas.
A inadequação social tanto do professor quanto de seu aluno deveria, em tese, aproximá-los. Mas, nada disso. Angus é um contêiner de agressividade contida, a partir do desaparecimento do pai e do novo casamento da mãe - evento que o mantém na escola durante os feriados do Natal, já que ela partiu em lua-de-mel.
Nada popular entre seus pares, Paul é designado para tomar conta de alunos como Angus, que ficarão na escola durante o recesso de fim de ano - o que destrói os planos do professor de mergulhar em seus livros no período em que a escola fica vazia. A única presença feminina será Mary (Da’vine Joy Randolph, vencedora do Oscar de atriz coadjuvante), a gerente da cantina escolar, no momento vivendo o luto pela morte de seu único filho, Curtis, na guerra do Vietnã - cortando um futuro que se assegurava promissor, já que o rapaz havia conseguido estudar em Barton por conta do vínculo da mãe. .
Quatro outros alunos ficaram para trás mas, no devido tempo, conquistarão suas férias fora da escola, que fica entregue a Angus, Paul e Mary. Em torno desse trio, Payne cria uma dinâmica sobre as possibilidades de convivência entre pessoas de gerações e origens bem diferentes, dando tempo para toda espécie de atrito, negociação e troca. Sem mágica, nem pieguice, como é seu estilo.
Uma grande qualidade de Payne é essa total falta de espetacularização em torno das revelações mais dramáticas, o que ocorre aos poucos na convivência destas três pessoas - também nas interações com outras ao longo do caminho, como com a assistente administrativa da escola, Lydia (Carrie Preston), que pode ser um interesse amoroso para Paul.
O humor permeia estas experiências dos personagens, a princípio dentro da escola, depois em duas situações externas - que é melhor não detalhar tanto, para não dar spoilers. O fato é que cada um dos personagens tem a oportunidade de revelar sua humanidade, expor suas escolhas, suas falhas, e encontrar pontos de contato um com o outro. Toda a questão racial e de classe em torno de Mary entra organicamente na história, sem necessidade de letreiro nem discurso, o que é muito bom. Ao final, fica uma lição dilacerante sobre a grandeza da ética de Paul na sequência final e uma esperança de superação para um personagem que, por várias razões, ficou restrito ao ambiente claustrofóbico e classista de Barton (que é uma escola fictícia).
Fora o talento, algumas curiosidades explicam a naturalidade dos personagens em seus respectivos papéis. O estreante Dominic Sessa realmente é aluno de um internato muito semelhante a Barton, Deerfield, que foi uma das locações do filme, e onde ele foi descoberto num teste, tendo atuado no grupo teatral da escola. Paul Giamatti, por sua vez, também estudou numa escola parecida, é filho de pai professor e inspirou seu personagem num de seus mestres, um professor de Biologia.
