04/06/2026
Drama

Segredos de um escândalo

Elizabeth é uma atriz famosa que deve interpretar, num projeto futuro, o papel de Gracie - uma mulher que, 20 anos atrás, chegou a ser presa por envolver-se com um adolescente de 13 anos, que, anos depois, tornou-se seu novo marido. Elizabeth aproxima-se de Gracie para pesquisar o papel, num relacionamento marcado por algumas tensões. No Prime Video.

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Voltando ao melodrama na sua habitual chave mais sofisticada, o cineasta norte-americano Todd Haynes investigou em Segredos de um Escândalo um componente de dualidade entre duas mulheres que, em alguns momentos, remeteu a Persona, de Ingmar Bergman - sem reproduzir, no entanto, a mesma relação de interdependência que havia no filme sueco de 1966 entre Liv Ullman e Bibi Andersson. 

As duas protagonistas aqui são Julianne Moore e Natalie Portman, interpretando, respectivamente, Gracie, uma mulher que há 20 anos atrás esteve no centro de um escândalo, sendo uma mulher adulta e casada que se envolveu com um garoto de 13 anos - que é hoje seu marido (Charles Melton) -, a outra, Elizabeth, uma atriz que pesquisa o caso para interpretá-la numa produção para a televisão.

O enredo se sustenta nesta aproximação dessas mulheres, retratando a fascinação da atriz pela figura contraditória de Gracie - cujo mistério a outra não consegue apreender. É fato que Julianne Moore se apropriou da personagem mais complexa desta trama, como uma mulher que ao mesmo tempo parece ingênua e frágil mas que acumula mais trunfos do que parece à primeira vista para comandar seu pequeno universo doméstico, do qual os filhos desta união estão se emancipando. 

É nítido que, a partir do roteiro, assinado por Samy Burch e Alex Mechanic, não se coloque ênfase em nenhuma chave psicológica para explicar a figura de Gracie - que continua vivendo na mesma região anos depois dos acontecimentos, mantendo eventual ligação com sua antiga família, cujas cicatrizes emocionais explodem mais nítidas no comportamento errático de seu filho mais velho do casamento anterior, Georgie (Cory Michael Smith).

A versão de Georgie para decifrar o comportamento da mãe respinga sobre o filme num determinado momento, sem que haja nenhuma preocupação em validar essa tese - que é possível, como outras. Ao longo da narrativa, há uma ênfase maior em expor as hesitações de Joe quanto ao próprio futuro, neste momento em que seus filhos gêmeos, Charlie (Gabriel Chung) e Mary (Elizabeth Hu), preparam-se para sair de casa, rumo à universidade. 

Compartilhando a mesma idade de Elizabeth, que passa a conviver no círculo íntimo da família para sua pesquisa, Joe entra no jogo que ela lhe atira, sobre sua insaciável curiosidade sobre esta história tão inusitada e carregada de tabus - e esta é certamente uma das vertentes que interessam a Haynes.

A outra vertente é o jogo da celebridade, este fenômeno tão moderno, que incorpora a atenção despertada pela vinda de Elizabeth, uma atriz famosa por trabalhos de que ela mesma não se orgulha, mas que se mostra capaz de usar esta atração para penetrar no círculo dos familiares e conhecidos de Gracie, em busca dos detalhes de sua história. Neste caminho, fica evidente a intenção de Haynes de refletir também sobre a própria possibilidade da adaptação, ou da reprodução de uma história, ter possibilidade de ser fiel, de fazer justiça, ou de apenas captar alguma nuance daquilo que é humano, profundamente humano, nos episódios mais contraditórios e polêmicos. 

O fino duelo de duas das atrizes mais carismáticas do cinema atual certamente é um dos atrativos de um filme complexo, tenso e que não busca aparar arestas - por isso, mostra-se, não raro, desconfortável e intrigante. 

 

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