03/06/2026
Drama

Propriedade

A estilista Teresa foi vítima de um sequestro-relâmpago em Recife e seu marido, Roberto, decide levá-la para um fim de semana em sua fazenda, no campo. Ao chegarem, são confrontados pelos empregados, que souberam da venda iminente da propriedade. As tensões aumentam até uma situação-limite, em que Teresa ficará confinada ao seu carro blindado.

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Sob todo e qualquer ponto de vista, Propriedade é uma história de horror - físico, psicológico e social. Um dos poucos longas brasileiros selecionados no Festival de Berlim 2023, na mostra Panorama, o segundo filme de Daniel Bandeira retrata, com particular veemência, a luta de classes e a violência que brota da ausência de mediações apropriadas numa situação-limite - quando os empregados de uma fazenda cercam sua proprietária, Teresa (Malu Galli), quando ela tenta fugir em seu carro blindado.

Montador experiente e diretor de Amigos de Risco (que foi realizado em 2007 mas, por diversos acidentes de percurso, só chegou aos cinemas em 2022), Bandeira acalentava este projeto há cerca de 16 anos. O tempo passado certamente lhe permitiu acrescentar camadas ao enredo, inspiradas num contexto em que a polarização política não cessou de crescer, acirrando os ânimos e a temperatura da história. O ponto de partida é uma crise envolvendo os empregados de uma fazenda e seus patrões, o casal Roberto (Tavinho Teixeira) e Teresa (Malu Galli). Roberto imagina a temporada na fazenda como uma forma de descanso para sua mulher, que foi vítima de um recente sequestro-relâmpago. No entanto, ao chegarem, os dois são confrontados com uma conflito, depois que os empregados souberam da iminente venda da propriedade rural.

Aqui começa o enfrentamento em torno da terra. Para os empregados, a fazenda é tudo o que conheceram por muitos anos, sob o agravante de que executaram o trabalho a título precário, já que não foram registrados. Para o patrão, trata-se de uma propriedade privada da qual ele pode dispor ao seu bel-prazer, tendo em vista apenas o seu próprio interesse.

Se o confronto é conhecido, repetindo-se desde as capitanias hereditárias, o andamento das situações não é. Num determinado momento, perde-se de vista, a rigor, um tom realista, em função de uma aceleração de ritmo e disposições que põem a raiva em primeiro plano. Na vida real, estes choques entre opressores e oprimidos costumam ser contidos por inúmeras manobras de negociação. Na situação que o filme coloca, caíram todos os muros e todas as inibições.

O choque será cada vez mais sangrento, mais expressionista, como se todas as pulsões do inconsciente perdessem o freio. Diante disso, o filme explora à exaustão a metáfora da claustrofobia, tendo no carro blindado dos patrões o território de resistência de uma Teresa acuada por funcionários em estado de fúria. Primeiro pelo convencimento, depois pela violência, eles tentam retirá-la de sua fortaleza aparentemente inexpugnável, procurando o confronto direto ao qual ela se recusa, refugiando-se nas ferramentas que considera seguras.

 Neste quadro, ressalta-se o trabalho excepcional de atuação de Malu Galli, que terá diante de si vários rostos, que funcionam como um coletivo feroz. Expondo suas ideias dentro do cinema de gênero, o filme encena este eterno conflito numa chave que não procura mediações e tenta não heroicizar nenhum dos dois lados - embora, a rigor, contemple a exposição de suas razões.

 Dado o alto grau de violência de muitas cenas, pode-se questionar se o filme acerta o alvo em sua forma de discutir o atavismo das relações sociais no Brasil. Porém, se há uma coragem que não se pode negar a Daniel Bandeira é a de levar a explosão de toda esta raiva contida até o fim. Como dizia a canção do Chico Buarque, qualquer desatenção pode ser a gota d’água.

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