É preciso ter o mínimo de familiaridade com o universo de Bruno Aleixo, personagem criado por João Moreira, Pedro Santo e João Pombeiro, que é uma mistura entre cachorro e urso, com uma aparência bastante peculiar. Ele estreou na televisão portuguesa em 2008, num talk-show ao lado de seu amigo Busto – um busto de mármore de Napoleão.
Desde lá, o personagem ganhou fama e o cinema. Depois de O filme do Bruno Aleixo, de 2019, dirigido por Moreira e Santo, chega O Natal do Bruno Aleixo, dirigido pela dupla e João Alves. O longa não gasta muito tempo com introduções ou apresentações. É mesmo uma produção para iniciados. E, em se tratando de Aleixo, não há meio-termo: ou se gosta demais ou não se suporta.
Aleixo é atropelado quando está com o amigo Bussaco, uma figura inspirada no Pé Grande, com uma dicção incompreensível. O protagonista acaba entrando em coma, embora, a princípio, os amigos desconfiem que possa ser fingimento para evitar as festas de fim de ano. Mas, afinal, descobre-se que é verdade.
Em seus delírios, como no Conto de Natal, de Charles Dickens, Aleixo relembra-se dos Natais passados e tem visões de outros no futuro. Filho de uma brasileira, em sua memória, por exemplo, passa a ocasião quando a família foi viajar para o Brasil e ele ficou em Portugal, onde passou o Natal no Dr. Ribeiro, um médico amigo seu que está se tornando invisível. Na época, ele tinha 85% de invisibilidade. Agora, enquanto cuida de Aleixo comatoso, já está totalmente transparente. É uma doença de família, explica na ceia, mostrando o tio e o avô.
Um dos melhores momentos é o do Natal Futuro, quando Aleixo “acorda” do coma dali a 25 anos e encontra um mundo totalmente transformado pela tecnologia, para sua surpresa. Rabugento, como sempre, o protagonista se espanta com as novidades, que nem um pouco o agradam.
O maior diferencial do filme é que cada um dos Natais foi entregue a um ilustrador ou ilustradora. Assim, os segmentos e técnicas têm aspectos particulares. Joana Afonso, Rafael da Silva Hatadani, Jorge Ribeiro, Fábio Veras e Kachisou trazem suas assinaturas próprias, expandindo assim o universo de Aleixo, Bussaco, Busto, Renato Alexandre (um personagem inspirado no Monstro da Lagoa Negra), e os demais.
