04/06/2026
Documentário

Paulinho da Viola - Meu Tempo é Hoje

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Num país em que a monarquia durou pouco e já foi derrubada há mais de cem anos, sobrevive, graças a Deus, uma sólida nobreza, a do samba - que tem no cantor e compositor Paulinho da Viola um indiscutível príncipe. Descendente de uma fina dinastia que começa com seu pai, o músico César Faria, e prossegue nos filhos, como o violonista João e a cantora Cecília, Paulinho ocupa por inteiro o centro deste documentário afetivo e preciso a um só tempo. Seguindo o roteiro atento do jornalista Zuenir Ventura, autor também das entrevistas, o filme de Izabel Jaguaribe instaura uma compreensão do personagem, respeitando sua delicadeza e discrição, sem deixar de inscrever seu bom humor e lançar pistas sobre seus aspectos inesperados - com revelações como a de que o compositor dissipa suas tensões na marcenaria e na mecânica de carros antigos (monta e desmonta há décadas um Karmann Ghia) e mantém em casa um torno onde conserta os tacos de bilhar, que ele maneja com a mesma maestria que os seus versos.

O filme é pródigo na apresentação do farto repertório de Paulinho e seus inúmeros parceiros, todos eles membros dessa nobreza informal mas sólida do mais rico ritmo do Brasil - entre eles, Elton Medeiros e Casquinha, da Velha Guarda da Portela. A trilha sonora derrama na tela Bebadosamba, 14 anos, Jurar com Lágrimas, Retiro, Choro Negro, Coisas do Mundo, Minha Nêga, Sinal Fechado, Ruas que Sonhei, Foi um Rio que Passou na Minha Vida e muitas outras jóias. Na voz de Paulinho, Walter Alfaiate, Nelson Sargento, Monarco, Marina Lima, Zeca Pagodinho e dezenas de convidados ilustres desta imperdível festa musical. Sem esquecer, também, de render homenagens a outros membros dessa enorme genealogia do samba, onde não falta a memória do mestre Pixinguinha, relembrado em melodias como Cochichando e a clássica Carinhoso, que Paulinho considera "a música do século" e é apresentada num belo dueto entre o compositor e Marisa Monte.

No meio desta riqueza de inspiradas notas musicais, o filme encontra seu eixo conseguindo a total cumplicidade de seu biografado, que fala para a câmera como se pensasse em voz alta. Nestas reflexões, entrega a senha do título - Meu Tempo é Hoje -, que traduz uma posição filosófica sobre a mais típica emoção luso-brasileira, a saudade. Coisa surpreendente em alguém como ele, que bebeu na fonte dos velhos mestres cariocas e respeita, como ninguém, a sabedoria desta tradição, afirma Paulinho: "A saudade anula a história e a vida". Para esse sambista em que tantas gerações se encontram, a relação com o tempo é de outra ordem: "O passado vive em mim". Quem seguir o fio de seus sambas, verá que este é o segredo da permanência do compositor, que já se prenuncia como eternidade.

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