A sofrência tinha outro nível nos tempos do compositor Lupicínio Rodrigues (1914-1974). Autor de clássicos da MPB como Vingança, Nervos de Aço, Volta, Esses Moços e Se Acaso Você Chegasse, ele dedilhou como poucos as cordas mais profundas do coração, enfrentando de peito aberto sentimentos tidos como pouco edificantes como ciúme, despeito e desejo de vingança. Mas quem nunca?
O cuidadoso e bem-pesquisado documentário Lupicínio Rodrigues - confissões de um sofredor, de Alfredo Manevy, resgata momentos cruciais da trajetória desse gaúcho nascido no bairro da Ilhota, em Porto Alegre - um lugar conhecido tanto pelas enchentes constantes quanto por uma vibrante cultura popular negra da qual Lupi se tornaria um dos expoentes mais conhecidos.
Nesse bairro fervilhante de clubes, músicos e um Carnaval de respeito, a família Rodrigues acolheu o nascimento de 21 filhos, dos quais 13 sobreviveram. Um deles o menino Lupicínio, que aos 15 anos já era cabo de exército e ali mesmo tomou o caminho da música, já que naquele tempo as bandas militares tinham bastante expressão. Por esse caminho heterodoxo, que começou até antes, por uma composição carnavalesca que o menino fizera aos 13 anos, Lupi foi percorrendo uma estrada sempre atribulada, em que o reconhecimento tardou a chegar.
Compondo e tocando em bares, ele garantia seu sustento em profissões como bedel da Faculdade de Direito, onde seu pai era porteiro, antes de lançar-se na mudança para o Rio de Janeiro, a capital do país, onde tudo acontecia. Lá, como tantos outros compositores, vendia sambas, mas aí conheceu o cantor Chico Alves, que gravou composições como Nervos de Aço, Maria Rosa e Esses Moços e ganhou um destaque maior.
O próprio Lupi se tornaria cantor de sua própria obra, cunhando um tipo de interpretação mais suave dos que os vozeirões, como Chico Alves e Cauby Peixoto, seguindo a trilha aberta por Mário Reis e servindo de inspiração para os bossanovistas que chegariam logo depois. O primeiro disco de Lupi como cantor saiu em 1952.
Como acontecia desde sempre, quem quisesse encontrá-lo tinha que percorrer o circuito de bares onde ele e outros se apresentavam, bebendo, cantando e conversando até de manhã. Foi assim que Caetano Veloso, recém-chegado do exílio, em 1971, foi procurá-lo, em Porto Alegre, gravando sua versão de Felicidade pouco tempo depois. Outros, como João Gilberto, Jamelão e Elza Soares, já haviam bebido na fonte inesgotável da inspiração de Lupi. E quantos outros o fariam depois, como até hoje.
Um tesouro encontrado pelo filme são entrevistas do próprio compositor, gravadas entre 1968 e 1974, ano de sua morte, e que ilustram, como nada mais faria, a fala macia, esperta e com um toque de melancolia deste inesquecível criador que elevou a sofrência a uma forma de arte.
