O que há de especial no detetive John Sugar (Colin Farrell) que leva a uma conexão quase imediata com ele - apesar de uma explosão de violência com a qual ele é apresentado logo no primeiro episódio?
Talvez seja esse diálogo interior que o ouvimos manter consigo mesmo, que permite enxergar por trás da aparência inflexível uma psicologia onde cabe também uma certa sensibilidade, além de uma dedicação impecável às suas missões. Elas começam em Tóquio, deslocando-se para Los Angeles, que se torna o centro de suas atividades.
Criado pelo roteirista Mark Protosevich, o detetive Sugar terá oito episódios nesta primeira temporada - os dois primeiros, exibidos na Apple TV em 5/4) - para exercitar suas impressionantes habilidades de percepção, inteligência e luta, com instintos calibrados e sempre à flor da pele, mas sem perder a ternura jamais - haja visto sua interação com um morador de rua, Carl (John Beavers), e seu cachorro Wily, que nada tinham a ver com sua missão.
Um toque de Brasil se insere na série, a partir da direção de Fernando Meirelles em cinco episódios, além da produção executiva, e do uruguaio radicado no Brasil César Charlone na fotografia destes 5 episódios, colaborando para o refinamento plástico deste retrato de uma selva urbana aparentemente tão solar mas repleta de pesadelos e fantasmas.
Ao centro da missão de Sugar em Los Angeles, está o desaparecimento da jovem Olivia Siegel (Sydney Chandler), neta de um veterano produtor de cinema, Jonathan Siegel (James Cromwell). O cinema, aliás, é um dos aspectos de formação do detetive, um cinéfilo apaixonado - e as inserções de cenas de inúmeros filmes clássicos do noir hollywoodiano certamente não figuram na série como mero ornamento. São referências que se somam ao longo de um caminho em que o espectador é desafiado a descobrir algo mais sobre este detetive tão peculiar. Eventualmente, ele parece afetado por um problema de saúde que preocupa sua atenta supervisora, Ruby (Kirby) - que pode até ser vista como uma espécie de M (Judi Dench) em sua relação protetora do agente James Bond.
Como em todo filme noir que se preza, as mulheres são fatalmente ambíguas, caso por aqui de Melanie (Amy Ryan), a ex-madrasta da desaparecida Olivia, que parece guardar tantas chaves para a sua desaparição - assim como o sombrio meio-irmão da moça, David (Nate Corddry), e o pai de ambos, Bernie (Dennis Boutsikaris). Como em todo filme de detetive, a família que ele investiga é um pântano em que ele terá que usar todos os seus incríveis recursos para sobreviver. Os próximos episódios prometem.
